Mercado discute possível “bolha” na Bolsa de Valores
No último ano, o número de brasileiros que investem em ações mais que dobrou na B3, atingindo a marca de 1,7 milhão - Crédito: Paulo Whitaker/ Reuters

São Paulo – Agentes do mercado começam a discutir os impactos da rápida corrida de investidores pessoas físicas à Bolsa de Valores. Em 2019, com a queda da Selic (taxa básica de juros) à mínima histórica de 4,5% ao ano, o número de brasileiros que investem em ações foi de 813 mil para 1,7 milhão.

Segundo Luis Stuhlberger, presidente da Verde Asset Management, o juro baixo tem pressionado a Bolsa ante a maior demanda por ativos mais rentáveis. “No Brasil, existe o efeito bolha na Bolsa. Os órfãos do CDI estão diversificando tudo o que aparece”, afirmou Stuhlberger, na quarta-feira (29), durante evento do Credit Suisse em São Paulo.

Em divulgação do balanço do Santander, o presidente do banco, Sérgio Rial, foi na mesma linha. “Não existe capitalismo sem capital na mão de brasileiros, mas é preciso mudar a educação para pessoas terem noção de risco e não criarmos bolhas”, disse Rial.

A afirmativa de Stuhlberger levantou uma discussão entre os especialistas em torno do risco de uma rápida valorização da Bolsa sustentada pela entrada do pequeno investidor – que entra no mercado acionário em busca de maiores retornos, mas acaba desconsiderando os riscos atrelados aos papéis.

“Os brasileiros não têm educação financeira para colocar dinheiro em investimento que pode gerar perdas. Temos que tomar cuidado para isso não virar uma hecatombe no futuro”, diz Juliana Inhasz, professora do Insper.

Para a especialista, o movimento da Bolsa não reflete a recuperação da economia. “A Bolsa queimou a largada com o ímpeto de investidores de tentar achar a nova galinha dos ovos de ouro. A economia real não cresceu nada, temos um caminho muito longo a percorrer. Por enquanto, é apenas perspectiva”, diz.

Outro lado – Nem todos, porém, acham que há uma bolha. Avalia-se risco de perda de capital se houver uma saída grande de investidores, mas não uma bolha em si.

Joelson Sampaio, coordenador do curso de economia da FGV, diz que bolha seria um boom de aberturas de capital e valorizações muito expressivas, mas sem base na economia real.

Para ele, a Bolsa não está cara. Apesar de ter batido o recorde nominal histórico diversas vezes no último ano, o Ibovespa teria que chegar a 130 mil pontos para se igualar à máxima de 2008, quando bateu 73.438 pontos, corrigida pela inflação. O Ibovespa encerrou a quarta aos 115.384 pontos. A máxima do ano foi de 119.527 pontos.

Para George Wachsmann, sócio da Vitreo, o que preocupa é a mudança súbita de apetite por risco e uma gama de investidores que migram para a Bolsa sem nunca ter experimentado uma queda.

“O excesso de demanda pode gerar distorções (nos preços) dos ativos. Entrar na Bolsa sem saber dos riscos é como entrar no mar sem saber nadar. Enquanto a onda não vem, tudo bem, mas, quando vem, os menos experientes podem entrar em pânico”.

O presidente-executivo da AZ Quest, Walter Maciel, afirma que o potencial da Bolsa no País ainda é muito grande. “Não vejo uma bolha. O Brasil ainda consegue trabalhar com múltiplos bem mais altos”.

Uma das formas de analisar se uma ação está cara é pelo múltiplo preço/lucro, ou seja, o preço da ação dividido pelo lucro por ação. Ele mostra quantos anos seriam necessários para o investimento no papel se pagar pela distribuição anual de dividendos.

O analista da Ativa Investimentos Ilan Arbetman discorda do termo “bolha”, mas enxerga a supervalorização de alguns ativos. “No setor aéreo, por exemplo, os múltiplos da Azul estão saturados, mas o papel continua subindo. No varejo, a Hering está com o múltiplo barato e Renner cara, mas as ações da primeira caem em janeiro, enquanto a segunda se valoriza, mesmo com as vendas no varejo no final do ano vindo fracas”, diz.

Para Arbetman, como são poucas empresas listadas em Bolsa (327) e há muita procura, o investidor topa pagar mais, mesmo com o múltiplo alto.

De acordo com o analista de mercado da Terra Investimentos Mauricio Battaglia, é importante destacar que o mercado tem duas maneiras de se ajustar nesses casos. “A primeira é a realização de lucros, quando a Bolsa cai por dois ou três dias e deixa todo mundo apavorado. A segunda é ficar um bom tempo no mesmo preço”, afirma.

“O ponto de Stuhlberger faz sentido, mas não temos que nos preocupar com isso agora. É cedo para pensar em bolha, ainda não chegamos a esse ponto. Vivemos uma recuperação do mercado acionário depois de uma forte crise”, complementa Sampaio, coordenador da FGV. (Folhapress)