Crise do petróleo foi causada pelo imbróglio entre a Rússia e a Arábia Saudita por conta de cortes na produção da commodity | Crédito: REUTERS/Pilar Olivares

Brasília – A queda acentuada nos preços do petróleo e a consequente turbulência nos mercados colocaram os governos da América Latina em uma posição pouco invejável: a de tentar fortalecer suas economias sem que um buraco seja aberto nos orçamentos ou que investidores internacionais acabem assustados.

Do México ao Brasil, diversos países da região são grandes exportadores de petróleo e outras commodities, e foram afetados por um golpe triplo, formado pelo crash do petróleo, pela redução da demanda da China por importações e pela queda vertiginosa no valor de suas moedas.

As projeções de crescimento econômico para este ano já vinham sendo reduzidas por causa da disseminação global do coronavírus, mas agora uma queda em importantes fluxos de receitas apertará ainda mais os orçamentos de muitos governos.

A resposta monetária ortodoxa, especialmente em mercados emergentes, que dependem muito dos fluxos de capital estrangeiro, seria apertar o cinto fiscal, algo que também é aprovado pelas agências de classificação de riscos.

Mas isso também acelera um ciclo vicioso de crescimento lento e austeridade cada vez maior. Em um momento de crise econômica, financeira e agora de saúde pública, a “austeridade expansionista” é uma política particularmente arriscada.

Alguns países, como o México, parecem mais abertos à ideia de estímulos fiscais. Outros, como o Peru, que recentemente ampliou em três anos – para até 2024 – o prazo para redução do déficit orçamentário, também podem ter um pouco mais de espaço para manobras fiscais.

Outros mais – como a Argentina, que já está em uma profunda crise econômico-financeira – não têm qualquer espaço para impulsionar gastos.

O Brasil, enquanto isso, sob a liderança de Paulo Guedes, ministro da Economia guiado pela Escola de Chicago, está reforçando sua política de “zelo fiscal”, conforme disse o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, na terça-feira (10).

“Muitos países já estão em déficit, então eles têm uma escolha”, disse Monica de Bolle, pesquisadora-sênior do Peterson Institute for International Economics, em Washington.
“Ter um déficit e não fazer nada, empurrando a economia para a recessão. Ou fazer alguma coisa – você continua tendo um déficit, mas minimiza o risco de outros problemas, como o desemprego elevado e a inquietação social”, afirmou.

Estímulo – Em uma indicação do quão comprometidos alguns países latino-americanos estão com a disciplina orçamentária, analistas do JP Morgan calculam que apenas o México, entre as principais economias da região, reagirá aos danos econômicos causados pela epidemia de coronavírus tanto com estímulos fiscais quanto com cortes na taxa de juros.
Brasil, Chile e Peru, por outro lado, não fornecerão estímulos fiscais, contando apenas com a maior flexibilização das políticas monetárias, mesmo diante do enfraquecimento das taxas de câmbio, disseram eles.

Os dados vão variar de país para país, mas nenhum deles sairá ileso da situação.
Na terça-feira (10), economistas do Bank of America Merrill Lynch reduziram a estimativa para o crescimento do PIB da América Latina em 2020 para 0,7%, contra 1,2% projetado anteriormente, e não descartaram uma recessão global moderada, o que reduziria o crescimento da região para apenas 0,2%.

O México atingiu sua meta de superávit primário de 1% do PIB no ano passado, registrando um superávit de 1,1%, mas apenas porque retirou 40% de um fundo destinado à estabilização orçamentária.

Agora, a grande queda nas receitas do setor petrolífero forçou o Ministério das Finanças mexicano a reduzir seus compromissos com o orçamento e defender um relaxamento fiscal para impulsionar uma economia que já havia flertado com a recessão no ano passado.

O ministro das Finanças do país, Arturo Herrera, disse na terça-feira que um programa de hedge (fixação de preços) de US$ 1,4 bilhão, o maior negócio financeiro do mundo relacionado ao petróleo, cobriu completamente a receita nacional com a commodity em 2020, e que dessa forma o crash do petróleo não terá um impacto “direto” no orçamento deste ano. “Mas ainda é uma situação preocupante”, afirmou Herrera.

A estatal Pemex, gigante do petróleo, é uma potencial preocupação. Caso queira sustentar seu plano de investimento de US$ 11 bilhões para este ano, o governo precisará fornecer um suporte adicional de US$ 13 bilhões, ou cerca de 1% do PIB, segundo estimativas de analistas do Citi. (Reuters)

Rússia: cortes na produção não fazem sentido

Moscou – A forte queda de preços do petróleo verificada nesta semana havia se tornado inevitável, disse o vice-ministro de Energia da Rússia, Pavel Sorokin, acrescentando que cortes de produção da commodity deixaram de fazer sentido, uma vez que ainda não é claro o quão profundo será o impacto do coronavírus sobre a demanda.

Em reunião na semana passada, que culminou com o colapso do acordo entre a Rússia e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) para redução de oferta, a Opep propôs cortes adicionais de 1,5 milhão de barris por dia (bpd), pedindo que os russos realizassem um corte extra de 300.000 bpd.

Sem acordo com os russos, a Arábia Saudita tem ameaçado inundar o mercado com petróleo, o que levou os preços a uma forte queda na segunda-feira (9), que chegou a mais de 30%.

Sorokin descreveu a tarefa de ampliar os cortes – que teria dobrado o compromisso de restrição de oferta do país para 600.000 bpd – como tecnicamente difícil.

Ele afirmou que não havia sentido em novos cortes até que todos pudessem entender o quão acentuada pode ser a queda da demanda por petróleo.

“Nós não podemos lutar contra uma situação de queda de demanda quando não há clareza sobre qual ponto seria o fundo do poço (para a demanda)”, disse Sorokin. Ele esteve em todas as reuniões conjuntas ao lado de seu chefe, o ministro Alexander Novak, e concedeu à Reuters a primeira entrevista desde os encontros da semana passada.

“É muito fácil ficar rodando em círculos quando, cortando uma vez, você entraria em uma situação ainda pior em, digamos, duas semanas: os preços do petróleo se recuperariam brevemente antes de cair de novo, à medida que a demanda continua a diminuir.”

A Rússia propôs a extensão dos cortes de produção que já estavam em vigor na Opep+, aliança do país com o cartel, de 1,7 milhão de bpd, por pelo menos mais um trimestre, para que o real impacto do coronavírus sobre a demanda fosse avaliado.

A Opep, no entanto, não aceitou a sugestão. Com isso, a partir de 1º de abril, todos os produtores da Opep+ poderão bombear petróleo sem restrições.

“Nós vemos a (atual) situação do mercado como previsível, embora desagradável… (Mas) o mercado e as forças do mercado vão regulá-lo rapidamente”, disse ele, acrescentando que a Rússia acredita que os preços encontrarão equilíbrio em torno de US$ 45 a US$ 55 por barril. (Reuters)

Preços acompanham bolsas de valores e recuam 4%

Nova York – Os preços do petróleo recuaram 4% ontem, intensificando quedas na parte final da sessão, pressionados pelo enfraquecimento dos mercados acionários depois de a Organização Mundial da Saúde declarar o coronavírus como pandemia. Além disso, grandes produtores anunciaram planos para escalar a crescente guerra de preços no mercado da commodity.

O petróleo Brent fechou em queda de US$ 1,43, ou 3,8%, a US$ 35,79 por barril, enquanto o petróleo dos Estados Unidos recuou US$ 1,38, ou 4%, para US$ 32,98 o barril.

Os ativos de risco enfrentaram turbulências durante todo o dia, mas aceleraram perdas conforme o número de casos de coronavírus aumentou e diversos países restringiram viagens.

“O que causou a queda nos preços do petróleo nos últimos minutos antes do fechamento do mercado foram as novas mínimas atingidas pelo mercado de ações”, disse Phil Flynn, analista do Price Futures Group em Chicago. “Neste momento, as notícias sobre o coronavírus parecem não estar inspirando esperanças de demanda.”

Tanto a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) quanto a Administração de Informação sobre Energia (AIE) reduziram estimativas de demanda por causa do coronavírus, citando retração de consumo neste trimestre.

Enquanto isso, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos anunciaram planos para impulsionar a capacidade produtiva após o fim das restrições de oferta. O Ministério de

Energia saudita orientou a Saudi Aramco a elevar sua capacidade de produção para 13 milhões de barris por dia (bpd), ante 12 milhões atuais, e a árabe Adnoc disse que irá ampliar sua oferta para mais de 4 milhões de bpd em abril.

Projeções – A demanda global por petróleo deve cair em 910 mil barris por dia (bpd) no primeiro trimestre, estimou a Agência de Informações de Energia dos Estados Unidos (AIE) ontem, em meio à rápida disseminação do coronavírus, que reduziu a atividade econômica e viagens, levantando temores de uma recessão global.

Os preços do petróleo tiveram o maior recuo em quase três décadas na segunda-feira (9), à medida que os principais produtores, Arábia Saudita e Rússia, começaram uma guerra de preços que ameaça inundar de oferta os mercados globais em um momento de baixa demanda.

Para o primeiro trimestre, a AIE espera que o consumo de petróleo e combustíveis líquidos caia em 910 mil bpd na comparação com o mesmo período do ano passado, para 99,06 milhões de bpd. Antes, a agência projetava expansão de 320 mil bpd.

Para 2020, a AIE reduziu a previsão de crescimento da demanda em 660 mil bpd, para 370 mil bpd.

A produção de petróleo dos EUA deve ter uma expansão de 760 mil barris por dia em 2020, para 12,99 milhões de barris, segundo a AIE, que revisou para baixo sua projeção anterior de alta de 960 mil bpd.

Em 2021, a produção norte-americana deve cair em 330 mil bpd, para 12,66 milhões de bpd, ante estimativa anterior de avanço de 360 mil bpd.

O ritmo recorde de crescimento da produção dos EUA tem perdido força à medida que empresas seguram investimentos em novas perfurações. (Reuters)