Crédito: REUTERS/Adriano Machado

Curitiba – Partido com apelo ao discurso anticorrupção e pró-reformas, o Podemos tem cada vez mais se afastado da gestão Jair Bolsonaro. A expulsão do deputado Marco Feliciano (SP), aliado do presidente, e recentes ataques da família Bolsonaro nas redes sociais abalaram a relação do governo com a legenda, que, por outro lado, mantém apoio incondicional ao trabalho do ministro da Justiça, Sergio Moro.

Apesar de se definir como independente, o Podemos chegou a ter dois vice-líderes do governo: Feliciano, na Câmara, e Elmano Férrer (PI), no Senado, esse último mantido no posto.

Na Câmara, foi mais fiel que o próprio PSL, partido pelo qual Bolsonaro foi eleito e que o presidente deixou em novembro: votou favoravelmente em 92% dos projetos enviados pelo governo, segundo levantamento do Congresso em Foco.

Representantes do Podemos, porém, não escondem o recente distanciamento gerado por pautas divergentes, principalmente no combate à corrupção, além de atritos com Bolsonaro.

No início de dezembro, o partido decidiu pela expulsão de Feliciano sob a acusação de infidelidade partidária e infração ética e moral.

A legenda entendeu que ele violou regras por ter feito campanha para Bolsonaro nas eleições de 2018, ignorando o candidato da sigla, o senador Alvaro Dias (PR). Em resposta, o deputado afirmou que o motivo da expulsão era, para ele, razão de orgulho.

Contra atos do governo, o Podemos também ingressou recentemente com quatro ações no Supremo Tribunal Federal (STF). Uma delas pretende derrubar a figura do juiz das garantias, mantida por Bolsonaro no pacote anticrime, apesar de recomendação contrária de Moro. O partido considerou uma traição do presidente a ausência de veto ao ponto do projeto.

Outra ação encabeçada pela sigla no Supremo, contra a taxa para o cheque especial, foi motivo de ataque de Bolsonaro no Twitter. O presidente escreveu que cancelar a medida pela via judicial, como pretende o partido, seria prejudicial aos endividados. “A quem interessa a ação do Podemos? Aos pobres ou aos banqueiros?”

A crítica, para Alvaro Dias, principal líder da legenda, foi “descabida”. “Como descabida é a taxa, que vai servir somente aos banqueiros”, disse o senador.

O vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente, também já investiu contra a legenda: “É impressão minha ou esse tal de Podemos já faz bastante tempo quer tomar o lugar de um partido vermelho? A metamorfose não para um segundo! Façamos sempre as leituras!”, escreveu no Twitter em setembro passado.

Independência – Alvaro Dias afirma que o partido mantém a mesma posição de independência, mas admite que a régua com o governo aumentou de distância. O motivo, segundo ele, é o afastamento de Bolsonaro de compromissos assumidos durante a campanha eleitoral.

“O presidente se afastou do combate à corrupção e não só eu digo isso”, afirma, citando uma das pautas mais caras ao partido. O senador acredita, por exemplo, que o ex-presidente Michel Temer (MDB), citado na Lava Jato, deu mais apoio à operação do que o atual governo.

A defesa do partido sobre a investigação vem desde a corrida presidencial. Na ocasião, Alvaro Dias prometeu convidar Moro, então juiz responsável pela Lava Jato em Curitiba, para ocupar a pasta da Justiça. Ambos são do mesmo estado, o Paraná. Como terminou o primeiro turno no amargo nono lugar, a ideia do senador acabou encampada por Bolsonaro depois da eleição.

O parlamentar cita como outros retrocessos avalizados pelo presidente a migração do Coaf do Ministério da Justiça para o Banco Central, o “sucateamento” da Receita Federal e o enfraquecimento de instituições de controle, como a Polícia Federal.

Neste cenário, Dias avalia que o ministro Moro tem feito o possível. “Ele tem que fazer verdadeiros malabarismos para continuar cumprindo uma missão importante. Foi desautorizado em algumas oportunidades, é visível que há divergências”, aponta. O senador acredita que o ministro tem feito concessões para preservar “credibilidade e popularidade”.

“O objetivo dele e nosso é que ele continue lá [no governo] lutando”, afirma a presidente do Podemos, deputada federal Renata Abreu (SP), sobre Moro. Porém ela diz que o governo não assumiu o papel decisivo para não “desvirtuar” o pacote anticrime defendido pelo ministro.

Abreu e Dias não escondem a disposição do partido em relação a Moro, apesar de não abraçar formalmente uma eventual candidatura presidencial dele em 2022.

“Nunca o convidamos (para se filiar ao Podemos), seria deselegante da nossa parte e iria tumultuar o governo. Seria uma honra ter a filiação dele, mas, se ele quiser, ele próprio saberá como fazer”, diz o senador.

Apesar das críticas a Bolsonaro, Renata Abreu não confirma se o partido vai mudar de postura no Congresso. Modificações poderiam comprometer o desempenho governista, principalmente no Senado, onde o Podemos ocupa a segunda maior bancada, com 11 cadeiras. A sigla também tem buscado outros nomes, como o do senador Flavio Arns (Rede-PR).

“O Podemos não é um partido de direita ou de esquerda, nos definimos como um partido de causa. O posicionamento continua sendo de independência. Se as pautas do governo forem no mesmo sentido que o nosso pensamento, vamos votar com o governo”, ressalta.

Dias também entende que a atitude do partido não deve mudar, principalmente em relação às pautas reformistas, mas considera este outro ponto em que o governo patina até então.. (Folhapress)