Menor diferencial de juros e cautela estariam pesando para o desempenho da moeda brasileira - Crédito:Agência Brasil

São Paulo – O dólar registrou na quarta-feira (8) a primeira queda ante o real deste novo ano, mas ainda assim o desempenho da moeda brasileira seguiu aquém de pares emergentes, com o tradicional otimismo de fim de ano dando lugar ao receio de que o caminho para a divisa doméstica continue tortuoso diante da mesma gama de incertezas presente ao longo do ano passado.

O real cai 1% ante o dólar no acumulado de 2020, enquanto o peso colombiano sobe 1,2%, o peso mexicano e a lira turca avançam 0,7% cada e o iuan chinês offshore se valoriza 0,4%.

A taxa de câmbio se depreciou em todas as quatro primeiras sessões do ano no Brasil, mas, na quarta, finalmente teve alta, de 0,3%, depois de discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reduzir riscos de escalada adicional de tensões com o Irã.

Ainda assim, o real se valorizou menos que seus pares. O rand sul-africano ganhava 0,9% no fim da tarde de quarta, a lira turca subia 1,1%, e o peso mexicano somava 0,5%.

“O que fica claro é que o real segue para trás em relação aos pares. Acredito que dois pontos principais ainda estejam pesando: o menor diferencial de juros e uma postura de mais cautela depois de anos de frustração com expectativas de crescimento”, disse Daniel Tatsumi, gestor de moedas da ACE Capital.

Selic baixa – O real depreciou 3,4% em 2019, depois de ter perdido 14,5% em 2018, ambos períodos em que o juro básico brasileiro (a Selic) atingiu novas mínimas recordes.

Os sucessivos cortes nos juros reduziram a diferença entre as taxas pagas pelos títulos brasileiros e os papéis norte-americanos – considerados os mais seguros do mundo. Assim, o investidor estrangeiro teve menos disposição para aplicar na renda fixa brasileira, o que prejudicou o fluxo cambial, diminuindo a oferta de dólar no País.

Dados do Banco Central mostraram, na quarta-feira, que o País teve saída líquida recorde de mais de US$ 44 bilhões em 2019.

Enquanto a Selic está em 4,50% ao ano, no México – concorrente direto do Brasil por investimento estrangeiro – a taxa básica de juros está em 7,25%. Na Turquia, a taxa repo (a referência por lá) está em 12%, enquanto na África do Sul se encontra em 6,50%.

A dúvida sobre o crescimento também tem pesado sobre o câmbio, assim como em 2019. O ano de 2020 começou com leituras de índices de gerentes de compras do Brasil indicando desaceleração da atividade nos setores manufatureiro e de serviços no fim de 2019, um balde de água fria em expectativas de uma retomada mais sólida e sequencial do ritmo da atividade.

Isso se soma a preocupações de que a economia frustre novamente expectativas, que atualmente apontam para um crescimento de 2,30% em 2020.

No começo de 2019, a perspectiva era de que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceria 2,53% no ano passado, mas a estimativa foi rebaixada para 1,17% ao fim do ano, conforme a pesquisa Focus do Banco Central. No início de 2018, o prognóstico indicava expansão de 2,69% naquele ano, o dobro do crescimento realizado, de 1,3%.

Em tese, um cenário de crescimento mais forte tende a atrair investimentos estrangeiros, com maior oferta de dólares.

Fora de lista – Em relatório desta semana, o Goldman Sachs excluiu o real de uma lista de destaque de moedas que mais poderiam se beneficiar da recuperação do crescimento de mercados emergentes. Estrategistas do banco preferem peso mexicano, rublo russo e rupia indonésia.

Em outro fator contra a moeda brasileira, os profissionais calcularam que o desvio da taxa de câmbio em relação ao seu padrão histórico – uma medida de quão excessivamente fraca ou forte uma moeda estaria – ficou praticamente zerado no fim do ano passado. Ou seja, o real estaria neutro, sem argumentos relevantes para mais valorização depois de ter ganhado 5,7% em dezembro.

Em contrapartida, peso chileno, iuan chinês, rand sul-africano, ringgit malaio e as moedas de México, Polônia, Colômbia e Peru ainda teriam mais espaço para apreciação. (Reuters)