Os moinhos de trigo destacam que o fornecimento do produto para a cadeia é o principal objetivo | Crédito: Joel Rocha

São Paulo – Governo, empresas e entidades que representam diversos setores do agronegócio do Brasil têm alinhado um discurso de garantia de abastecimento de alimentos no País, em meio à crise do coronavírus.

Por meio de comunicados, publicações em redes sociais e propagandas publicitárias, o objetivo é tranquilizar a população para evitar compras excessivas no varejo para formação de estoque domiciliar, em meio ao avanço do vírus no País, que já soma quase 1.900 casos confirmados.

A Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), entidade que representa as indústrias de café torrado e moído do País, informou nessa segunda-feira (23) que, “apesar dos problemas causados pela pandemia da Covid-19, logísticos e operacionais, o abastecimento do café seguirá normalmente”.

Os moinhos de trigo contam com estoques de matéria-prima, embalagens e materiais auxiliares em nível compatível com as vendas, mesmo ante o aumento na demanda ocorrido no curto prazo, disse a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo). O fluxo de recebimento destes materiais continua ocorrendo normalmente.

“O principal foco dos moinhos neste momento é garantir o abastecimento de toda a cadeia do trigo – supermercados, atacados, padarias, indústrias de massas, biscoitos, pães industriais e bolos e demais canais de food service”.

Também ontem, a oferta de carne de aves e suínos foi garantida pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS) e a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) por meio de uma nota conjunta.

“As granjas, as indústrias frigoríficas e os supermercados do Brasil não interromperam seu funcionamento e estão priorizando o cumprimento das normas do Ministério da Saúde com relação às medidas preventivas”, disse o comunicado assinado pelos presidentes das três associações.
Ainda foi citado o compromisso de “manutenção de preços justos” pelo produto comercializado no varejo.
No setor de carne bovina, a Marfrig Global Foods informou, em nota, que as operações de suas 14 plantas espalhadas entre Brasil, Estados Unidos, Argentina, Uruguai e no Chile estão em operação e continuarão a funcionar, de forma a garantir a oferta nestes mercados e as exportações da companhia para mais de 100 países.
Levantamento encomendado pela Associação Brasileira das Indústrias de Carnes (Abiec) à consultoria Athenagro prevê que a produção brasileira de carne bovina deve ser 35,5% maior do que o volume consumido no País.
“Essa produção já está contratada com as operações em andamento nas fazendas, e, por conta da dinâmica da cadeia produtiva, não pode ser interrompida. Ou seja, os volumes serão produzidos, portanto não há risco de desabastecimento de proteínas”, afirmou a Abiec em nota.

Monitoramento constante – A entidade também informa que está em contato direto com o Ministério da Agricultura para gerenciar e identificar situações pontuais que necessitem de ações para ajustar fluidez do processo produtivo.

No âmbito do governo, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, usou sua conta no Twitter para afirmar, em vídeo publicado no último sábado, que a pasta vem acompanhando todos os dias os fluxos das cadeias produtivas, para que sejam mantidos.

“A agropecuária está incluída nos serviços essenciais porque o alimento é básico para a sobrevivência das pessoas”, enfatizou, enaltecendo, também, a figura do produtor rural.
Além disso, a Sociedade Rural Brasileira (SRB) enviou ontem uma carta à Presidência da República, ministros e governadores com medidas para garantir a segurança alimentar. No documento, a entidade classifica como “imprescindível” manter a estrutura logística de estradas e ferrovias funcionando para o livre trânsito de produtos agrícolas e trabalhadores. (Reuters)

Entidades tentam paralisação em algumas regiões

São Paulo – Em Santa Catarina, um sindicato de trabalhadores da indústria de carnes do município de Criciúma e região chegou a solicitar judicialmente a paralisação das atividades de duas unidades da Seara, controlada pelo grupo JBS, como medida de contenção ao surto do novo coronavírus.

A companhia, no entanto, conseguiu manter as atividades por meio de uma liminar do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) com a justificativa de que a medida “interrompe uma atividade considerada essencial e gera alto risco de desabastecimento de proteína animal à sociedade”, disse a decisão a qual a Reuters teve acesso.

”A JBS informa que foi deferida liminar que autoriza a retomada imediata de suas atividades nas unidades de Forquilhinha e Nova Veneza, em Santa Catarina. A decisão reafirma o firme propósito da companhia de não comprometer a produção e o abastecimento de alimentos de qualidade, atividade essencial ainda mais necessária em todo o País neste momento”, afirmou a empresa à Reuters.

Apesar do posicionamento do sindicato de Criciúma, a Associação Catarinense de Avicultura (Acav) e o sindicato estadual de carnes (Sindicarne) afirmaram que manterão seus níveis de produção.

Em outra frente, um decreto municipal de Rondonópolis (MT), importante polo agroindustrial e logístico de Mato Grosso, determinou o fechamento de todos os serviços não essenciais e ordenou a suspensão de operações nas indústrias locais, em resposta à crise do coronavírus, de acordo com um decreto municipal de 21 de março. (Reuters)