Algumas frases atravessam o cinema e entram para a cultura popular. Em Dia de Treinamento (2001), foi exatamente isso que aconteceu quando Denzel Washington improvisou a fala “King Kong ain’t got shit on me!” (“King Kong é fichinha perto de mim”). A frase, dita no auge do confronto final do filme, não estava no roteiro original, mas se tornou um dos momentos mais icônicos do cinema americano — e ajudou a garantir ao ator seu primeiro Oscar de Melhor Ator.
Dirigido por Antoine Fuqua, Dia de Treinamento acompanha um único dia na vida do policial novato Jake Hoyt (Ethan Hawke), que entra em contato com o lado mais sombrio da polícia de Los Angeles ao ser colocado sob a tutela do sargento Alonzo Harris, interpretado por Denzel Washington.
Desde a primeira cena, Alonzo é apresentado como uma figura dominante, carismática e perigosa. Washington constrói o personagem como alguém que dita as regras, controla o ritmo da narrativa e impõe sua presença em cada diálogo. Essa intensidade culmina no monólogo em que o policial corrupto desafia seus inimigos e se coloca acima de todos.
A frase que não estava no roteiro
O momento mais lembrado do filme surgiu de forma espontânea. A fala “King Kong ain’t got shit on me” não constava no roteiro escrito por David Ayer. Ela nasceu no set, durante as filmagens da cena final, quando Denzel Washington decidiu levar o personagem ao limite.
Em entrevista ao CinemaBlend, o diretor Antoine Fuqua revelou que percebeu imediatamente que havia algo especial acontecendo.
“Eu estava tão absorto observando Denzel que o vi entrar em transe. No final, me perguntei se estava tudo nítido, porque eu sabia que aquilo não aconteceria de novo. Foi uma única tomada”, contou Fuqua.
Segundo o diretor, a cena sequer foi repetida. A intensidade do momento, somada à entrega total do ator, tornou a improvisação impossível de ser recriada.
O Oscar que veio com o “vilão”
Em 2002, Denzel Washington venceu o Oscar de Melhor Ator, tornando-se apenas o segundo homem negro a conquistar o prêmio nessa categoria. Curiosamente, o reconhecimento veio por um papel de vilão — algo que muitos críticos apontam como decisivo.
A Academia, historicamente, costuma premiar atuações mais ousadas e moralmente ambíguas. Em Dia de Treinamento, Washington subverteu sua imagem clássica de herói e entregou um personagem cruel, manipulador e magnético, considerado por muitos como a melhor atuação de sua carreira.



