Pouco conhecida fora do meio científico, uma técnica chamada fitomineração vem ganhando destaque por permitir a extração de metais preciosos, como ouro, níquel e cobre, a partir de plantas comuns em diversas regiões do planeta, inclusive no Brasil. O método utiliza espécies chamadas de hiperacumuladoras, capazes de absorver grandes quantidades de metais do solo e armazená-los em seus tecidos, oferecendo uma alternativa mais sustentável à mineração tradicional.
O processo começa com a escolha de solos naturalmente ricos em metais. As plantas hiperacumuladoras retiram esses elementos pelas raízes e os armazenam nas folhas, caules ou brotos, muitas vezes na forma de nanopartículas. Para as plantas, os metais não são tóxicos — pelo contrário, funcionam como um mecanismo de defesa contra insetos, fungos e outros predadores.
Atualmente, cerca de 700 espécies com essa capacidade já foram identificadas. Algumas conseguem concentrar níquel, zinco, cobre, cobalto, terras raras e até ouro. No Brasil, esse tipo de planta é relativamente comum em áreas com solos metálicos, o que desperta interesse econômico e ambiental.
O uso dessas plantas começou nos anos 1980, inicialmente como uma forma de limpeza de solos contaminados por atividades industriais ou nucleares. Um dos casos mais emblemáticos foi o uso de plantas para remover césio radioativo do solo em áreas afetadas pelo desastre de Chernobyl.
Na década de 1990, cientistas avançaram um passo além e passaram a explorar o potencial econômico do método. Assim nasceu a fitomineração: em vez de descartar os metais absorvidos pelas plantas, eles passaram a ser recuperados e utilizados pela indústria.
Exemplo prático: colheita de níquel
Em países da Europa e dos Bálcãs, como a Albânia, agricultores já cultivam espécies do gênero Odontarrhena, que acumulam grandes quantidades de níquel. Após a colheita, as plantas são secas e queimadas. O processo gera um resíduo conhecido como bio-minério, uma cinza rica em metal.
Essa cinza é lavada, tratada com ácido sulfúrico e transformada em sulfato de níquel, matéria-prima muito utilizada na produção de baterias de grande porte, especialmente para carros elétricos. Em média, até 2% do peso seco da planta pode se transformar em níquel aproveitável.

A fitomineração surge como resposta aos impactos severos da mineração tradicional, que envolve desmatamento, grandes volumes de rejeitos tóxicos e alto consumo de energia. No caso do níquel, por exemplo, a produção convencional pode gerar entre 10 e 59 toneladas de CO₂ por tonelada de metal extraído.
Com plantas, parte desse impacto é reduzida. As culturas capturam carbono da atmosfera durante o crescimento, e mesmo com a liberação de CO₂ na queima das plantas, o balanço final de emissões é próximo de zero. Além disso, o método pode ser aplicado em terras áridas ou impróprias para a agricultura, ampliando o uso produtivo do solo.
Por que o método pode ganhar espaço no Brasil
Embora a técnica possa ser aplicada a diversos metais, o foco atual está no níquel, cuja demanda deve dobrar até 2050, segundo a Agência Internacional de Energia, impulsionada pelo crescimento do mercado de veículos elétricos. Hoje, grande parte da oferta vem de minas concentradas na Indonésia, muitas delas sob controle chinês.
Nesse cenário, países como o Brasil — que possuem solos ricos em metais, mas nem sempre em altas concentrações — podem usar a fitomineração como alternativa estratégica para garantir abastecimento interno, reduzir impactos ambientais e diversificar a economia mineral.




