Um brasileiro pode receber uma indenização maior do que o valor pago individualmente aos vencedores da Mega da Virada caso a Justiça confirme a condenação da Fifa. O inventor Heine Allemagne Vilarinho Dias, criador do spray usado por árbitros para marcar a distância da barreira em cobranças de falta, pede US$ 40 milhões (cerca de R$ 211 milhões) por uso indevido da patente. A Fifa recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) no que pode ser o capítulo final da disputa judicial no Brasil.
O processo envolve acusações de má-fé, promessas não cumpridas e exploração comercial indevida do produto que se tornou padrão em competições internacionais desde a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. A ação foi movida em 2017 pela empresa Spuni Comércio de Produtos Esportivos, ligada ao inventor.
Segundo a defesa, dirigentes da Fifa prometeram durante anos adquirir a patente do spray e, ao mesmo tempo, teriam desestimulado Heine Allemagne a negociar com outros parceiros comerciais, criando dependência exclusiva da entidade. E-mails anexados ao processo mostram negociações que nunca se concretizaram, incluindo propostas que variaram de US$ 500 mil, às vésperas do Mundial de 2014, até a oferta final de US$ 40 milhões, que também não foi paga.
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) já decidiu que a Spuni deve ser ressarcida, entendimento que levou a Fifa a recorrer ao STF.
Valor supera prêmio da Mega da Virada
O montante reivindicado por Heine Allemagne chama atenção por ser superior ao valor recebido individualmente pelos ganhadores da Mega da Virada, mesmo no maior concurso da história. Em edições recentes, o prêmio principal ultrapassou R$ 1 bilhão, mas foi dividido entre vários vencedores, reduzindo o valor líquido por aposta — em patamares inferiores aos R$ 211 milhões pleiteados pelo inventor.
Caso vença definitivamente a ação, o brasileiro poderá receber, sozinho, um valor equivalente a um dos maiores prêmios já pagos fora das loterias no país.
Da origem humilde à invenção global
Natural de Ituiutaba (MG), no Triângulo Mineiro, Heine Allemagne tem uma trajetória marcada por dificuldades financeiras e múltiplas profissões antes do sucesso. Sem concluir o ensino médio, trabalhou como entregador, jornaleiro, panfleteiro, auxiliar de contabilidade, gráfico e empresário, até se firmar como publicitário.
Em entrevista ao ge, ele contou que a ideia surgiu de forma simples, assistindo a uma transmissão esportiva.
“A invenção em si foi quando eu estava com muita dificuldade financeira. Um dia, em um jogo na TV, o Galvão Bueno disse: ‘eu quero ver o cidadão que vai manter a barreira no lugar’. Aí eu falei: ‘eu vou resolver isso aqui agora’”, relatou.
O spray rapidamente se espalhou pelo futebol mundial e passou a ser utilizado em Copas do Mundo, torneios continentais e campeonatos nacionais, tornando-se um símbolo de modernização da arbitragem.


