A Heineken enfrenta um de seus momentos mais delicados dos últimos anos. O presidente-executivo da cervejaria holandesa, Dolf van den Brink, anunciou sua renúncia nesta segunda-feira (12), após quase seis anos no comando da segunda maior fabricante de cerveja do mundo. A saída inesperada ocorre em meio à queda no consumo global, pressão sobre as margens e desempenho abaixo dos principais concorrentes — cenário que abre espaço para rivais como a Ambev ganharem ainda mais força, especialmente no Brasil.
Van den Brink assumiu a liderança da Heineken em junho de 2020, no auge da pandemia da Covid-19. Desde então, comandou a empresa durante um período marcado por inflação recorde de custos, retração do consumo e necessidade de reajustes agressivos de preços, fatores que impactaram negativamente vendas, margens e o valor das ações.
O executivo deixará oficialmente o cargo em 31 de maio e permanecerá como consultor da companhia por oito meses, a partir de junho. Segundo a empresa, o conselho de supervisão já iniciou a busca por um sucessor, algo considerado atípico, já que a Heineken costuma anunciar o novo CEO de forma planejada.
“A Heineken chegou a um estágio em que uma transição na liderança servirá melhor à empresa na execução de suas ambições de longo prazo”, afirmou Dolf van den Brink em comunicado oficial.

Desempenho abaixo dos rivais acende alerta no mercado
Analistas apontam que o momento da saída não chega a ser uma surpresa. Desde que van den Brink assumiu, as ações da Heineken apresentaram desempenho inferior ao de concorrentes diretas, como a AB InBev — controladora da Ambev — e a Carlsberg. Nos últimos cinco anos, os papéis da cervejaria holandesa acumulam queda superior a 25%.
A empresa também já sinalizou que deve registrar retração de 2% a 3% no volume de cerveja vendido no balanço anual, além de crescimento de lucro no piso da projeção divulgada anteriormente.
Impacto no Brasil e vantagem para a Ambev
No Brasil, a instabilidade no comando global da Heineken pode gerar reflexos estratégicos. A companhia disputa diretamente espaço com a Ambev, líder absoluta do mercado nacional e dona de marcas como Skol, Brahma e Antarctica. Qualquer sinal de fragilidade da concorrente é visto com entusiasmo pelo setor, especialmente em um momento de consumo mais contido e disputa acirrada por participação de mercado.
Enquanto a Heineken enfrenta incertezas sobre sua liderança e desempenho, a Ambev mantém posição consolidada, com forte presença logística, portfólio diversificado e maior capacidade de absorver oscilações econômicas.
Setor pressionado e transição delicada
A saída de van den Brink se soma a uma série de mudanças no alto escalão de grandes empresas de bens de consumo, pressionadas pelo alto custo de vida e pela mudança no comportamento dos consumidores, que têm reduzido o consumo de álcool.
Durante sua gestão, o executivo apostou em campanhas que posicionavam a cerveja como um “conector social” e liderou aquisições em mercados emergentes, como Índia, África do Sul e América Central. Ainda assim, os resultados não foram suficientes para sustentar o ritmo frente aos principais concorrentes.




