Lesões na medula espinhal, historicamente tratadas como irreversíveis pela medicina, podem estar perto de ganhar um novo capítulo. A responsável é a cientista brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que lidera uma pesquisa inédita capaz de estimular a regeneração de neurônios danificados. O avanço já permitiu que pacientes paraplégicos e tetraplégicos recuperassem movimentos, um feito que vem sendo apontado por especialistas e pela comunidade científica como potencial candidato ao Prêmio Nobel de Medicina.
Após quase três décadas de estudos, Tatiana coordenou o desenvolvimento da polilaminina, uma proteína experimental que atua diretamente no local da lesão medular e funciona como uma espécie de “cola biológica”, favorecendo a reconexão dos neurônios rompidos.
A polilaminina é uma molécula baseada em proteínas extraídas da placenta humana, que desempenham papel fundamental no desenvolvimento do sistema nervoso. Aplicada por meio de injeção diretamente na região lesionada da medula espinhal, a substância cria um ambiente favorável para o crescimento dos axônios e a reconstrução dos circuitos nervosos.

O tratamento está sendo desenvolvido em parceria com o laboratório brasileiro Cristália e já teve a fase 1 dos testes clínicos aprovada pela Anvisa, etapa que avalia a segurança e os primeiros sinais de eficácia do método.
Até o momento, pelo menos 16 pacientes brasileiros obtiveram na Justiça o direito de receber a aplicação experimental. Desses, ao menos cinco apresentaram recuperação parcial dos movimentos, um resultado considerado inédito em casos de lesão medular grave.
Casos que desafiaram a medicina
O primeiro paciente tratado foi Luiz Fernando Mozer, de 37 anos, que ficou tetraplégico após um acidente durante uma apresentação de motocross no Espírito Santo. Menos de 48 horas após a aplicação da polilaminina, ele relatou retorno da sensibilidade e conseguiu contrair músculos das coxas e da região anal.
Outro caso é o de um homem de 35 anos que sofreu uma queda de moto e voltou a apresentar movimentos no pé e sensibilidade nas pernas. Já Bruno Drummond de Freitas, de 31 anos, diagnosticado com tetraplegia, conseguiu voltar a andar após o tratamento. Também apresentaram melhora Diogo Barros Brollo, de 35 anos, e um jovem de 24 anos que sofreu um acidente em uma cachoeira no Espírito Santo.
Todos os procedimentos foram realizados sob coordenação médica especializada, incluindo o neurocirurgião Bruno Alexandre Côrtes, do Hospital Municipal Souza Aguiar, no Rio de Janeiro.
Uma cientista fora dos holofotes
Apesar da repercussão mundial da pesquisa, Tatiana Coelho de Sampaio mantém um perfil discreto. Aos 59 anos, mãe de dois filhos e responsável por acolher em casa uma jovem órfã do Maranhão, a cientista afirma dormir cerca de seis horas por noite e não ter redes sociais.
“Prefiro a vida real. Viver sempre será minha primeira opção”, declarou ao comentar sua decisão de se manter distante do ambiente digital.
A descoberta da polilaminina é considerada por especialistas uma das maiores inovações da medicina brasileira nas últimas décadas. Ao devolver movimentos e esperança a pacientes antes condenados à paralisia permanente, a pesquisa coloca o Brasil no centro de um debate científico global sobre regeneração neural.




