Dormir e acordar mais tarde de forma habitual pode ir além de uma simples preferência pessoal e representar um risco real à saúde. É o que indica uma ampla pesquisa internacional que associou o perfil noturno de sono a uma maior incidência de problemas cardiovasculares, incluindo infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
O estudo analisou dados do UK Biobank, um dos maiores bancos de informações de saúde do mundo, e acompanhou mais de 300 mil adultos ao longo de aproximadamente 14 anos. Os pesquisadores avaliaram o chamado cronotipo, que define se uma pessoa tende a funcionar melhor pela manhã, à noite ou em um padrão intermediário.
Os resultados mostraram que pessoas com cronotipo claramente noturno — aquelas que costumam dormir e acordar tarde — apresentaram piores indicadores de saúde cardiovascular ao longo do tempo. Em comparação com indivíduos matutinos ou de rotina intermediária, esse grupo teve maior incidência de eventos como infarto e AVC durante o período de acompanhamento.
Segundo os autores, o problema não está apenas no horário de dormir, mas no desalinhamento entre o relógio biológico e as exigências sociais, como trabalho e compromissos matinais. Esse descompasso pode levar à privação crônica de sono, alterações hormonais, inflamação e aumento da pressão arterial.
Qualidade e duração do sono também influenciam
Outros estudos reforçam essa associação. Uma pesquisa publicada em 2023 na revista Neurology apontou que a presença de múltiplos distúrbios do sono — como ronco intenso, despertares noturnos frequentes, sonolência excessiva durante o dia e dormir pouco ou demais — pode aumentar significativamente o risco de AVC.
A neurologista Karin Johnson, da American Academy of Neurology, destaca que tanto a falta quanto o excesso de sono, além da má qualidade do descanso, estão ligados a fatores que favorecem o AVC, como:
- Hipertensão arterial
- Obesidade
- Diabetes
- Colesterol elevado
- Inflamação crônica
- Maior formação de coágulos
Além disso, o sono inadequado prejudica a limpeza de toxinas no cérebro, processo relacionado também a doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e demência.
Apneia do sono é um fator de alerta
Um dos distúrbios mais associados ao AVC é a apneia obstrutiva do sono. Estudos indicam que cerca de 70% dos pacientes que sofreram AVC apresentam esse problema, muitas vezes sem diagnóstico prévio. A condição provoca interrupções repetidas da respiração durante a noite, reduzindo a oxigenação do cérebro e elevando a pressão arterial.
Mesmo após ajustes para outros fatores de risco, pessoas com apneia do sono chegam a ter o dobro de chance de sofrer um AVC, segundo especialistas.
Curiosamente, dormir em excesso não é necessariamente protetor. Uma pesquisa de 2019 mostrou que pessoas que dormem nove horas ou mais por noite apresentaram 23% mais risco de AVC em comparação àquelas que dormem menos de oito horas. Cochilos diurnos prolongados — acima de 90 minutos — também foram associados a maior risco.
De acordo com especialistas, esses hábitos podem indicar a presença de distúrbios do sono não tratados, como a própria apneia.




