Imagine viver em um lugar onde temperaturas abaixo de −60°C fazem parte do cotidiano e o frio extremo dita todas as regras da vida urbana. Essa é a realidade de Yakutsk, no norte da Sibéria, considerada a cidade mais fria do planeta habitada de forma permanente. Mesmo diante de invernos implacáveis, pouca luz solar e solo eternamente congelado, mais de 300 mil pessoas seguem vivendo, trabalhando e mantendo tradições em um dos ambientes mais hostis da Terra.
Localizada às margens do rio Lena, a cerca de 450 quilômetros do Círculo Polar Ártico, Yakutsk já registrou temperaturas próximas de −64°C, e regiões da República de Sakha (Yakutia) chegam a encarar marcas ainda mais extremas, como −71°C. No inverno, a cidade enfrenta menos de quatro horas de luz por dia e uma névoa de gelo constante, que reduz drasticamente a visibilidade.
Construída sobre permafrost — solo permanentemente congelado —, Yakutsk precisou reinventar sua engenharia urbana. Prédios são erguidos sobre estacas para evitar que o calor interno derreta o solo e comprometa as estruturas. Tubulações de água convencionais não existem: encanamentos congelariam e se romperiam.

Água, comida e rotina sob temperaturas extremas
Sem água encanada, os moradores coletam blocos de gelo dos rios no início do inverno. O gelo é armazenado próximo às casas e derretido conforme a necessidade, garantindo abastecimento ao longo dos meses mais frios.
Nos mercados ao ar livre, peixes permanecem congelados como pedras, e o leite é vendido por quilo, não por litro. A alimentação reflete o clima severo: carnes cruas e congeladas de cavalo, rena e peixe são comuns, já que quase nada cresce no solo gelado.
A locomoção também exige cuidados extremos. Carros costumam ficar ligados por horas para evitar que o motor congele. Pontos de ônibus são aquecidos, moradores carregam garrafas térmicas com bebidas quentes e o tempo ao ar livre é rigorosamente calculado para evitar congelamento da pele.
Cultura, resistência e celebração do verão
Apesar das adversidades, Yakutsk mantém uma vida cultural ativa. Esportes tradicionais, como o mas-wrestling — luta em que dois competidores disputam um bastão de madeira — fazem parte da identidade local e já renderam campeonatos mundiais à cidade.
Quando o verão chega, breve e intenso, com temperaturas que podem ultrapassar 30°C, a população celebra. O festival Ysyakh, por exemplo, marca o retorno da luz, do calor e da vida ao ar livre, transformando o curto período quente em um verdadeiro evento coletivo.




