Depois de movimentações agressivas na Venezuela e declarações controversas sobre a anexação da Groenlândia, os Estados Unidos voltam seus olhos para um novo território estratégico: o Brasil. O interesse, segundo analistas, não é político nem ideológico, mas mineral. Em um cenário de crescente disputa global por insumos essenciais à economia do século 21, o país surge como peça-chave na estratégia americana para reduzir a dependência externa e conter a influência da China.
O recente ataque dos Estados Unidos à Venezuela, que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro, e a ofensiva diplomática do presidente Donald Trump sobre a Groenlândia evidenciam um movimento mais amplo: o avanço das grandes potências sobre regiões ricas em minerais estratégicos. Embora Trump tenha se referido à Groenlândia como apenas um “pedaço de gelo”, especialistas apontam que o verdadeiro interesse está sob a superfície.
Há indícios de que a Groenlândia possa concentrar até 25% das reservas globais de elementos de terras raras. Estima-se que o território abrigue ao menos 1,5 milhão de toneladas desses minerais, além de lítio, grafite, urânio, cobre, níquel, cobalto e até petróleo.
Esses recursos são fundamentais para a produção de carros elétricos, painéis solares, smartphones, turbinas e equipamentos militares de alta tecnologia. De acordo com a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), a demanda por esses insumos deve crescer 1.500% até 2050, ritmo muito superior à atual capacidade de produção global.
Em março de 2025, Donald Trump assinou um decreto para ampliar a produção de minérios críticos e terras raras nos Estados Unidos, com o objetivo de reduzir a dependência externa. Atualmente, o país importa grande parte desses materiais, enquanto a China domina cerca de 60% da produção mundial e quase 90% do refino, segundo a Agência Internacional de Energia.
A estratégia americana já passou por zonas de conflito. Na Ucrânia, Trump condicionou a continuidade do apoio militar à assinatura de acordos para exploração de minerais estratégicos, em meio à guerra contra a Rússia iniciada em 2022.
O Brasil no centro do tabuleiro
Agora, o Brasil entra no radar. O país detém até 23% das reservas conhecidas de terras raras do mundo, segundo o U.S. Mineral Commodity Summaries, mas responde por menos de 1% da produção global. A explicação está no fato de que muitas jazidas se localizam em áreas ambientalmente sensíveis, como a Amazônia.
Mesmo assim, o interesse estrangeiro cresce. Reportagem da Folha de S.Paulo revelou que a mineradora Serra Verde — a única em operação no Brasil dedicada às terras raras e a primeira fora da Ásia a produzir esses elementos em escala comercial — recebeu um aporte de US$ 465 milhões (cerca de R$ 2,5 bilhões) do Development Finance Corporation (DFC), órgão financeiro do governo dos EUA.
O movimento é visto como uma forma indireta de Washington garantir acesso a esses recursos sem depender exclusivamente de acordos estatais.

Além das terras raras, o Brasil possui outro ativo estratégico de enorme valor geopolítico: o nióbio. O país concentra cerca de 92% da produção mundial do metal, utilizado em ligas de alta resistência aplicadas na siderurgia, construção civil, setor aeroespacial, baterias e armamentos de alta tecnologia, incluindo mísseis hipersônicos.
O nióbio ganhou projeção política nos últimos anos após ser defendido reiteradamente pelo ex-presidente Jair Bolsonaro como um recurso estratégico nacional, despertando ainda mais atenção internacional sobre o subsolo brasileiro.




