Os Estados Unidos, país mais rico do planeta e dono de um Produto Interno Bruto (PIB) estimado em cerca de R$ 162 trilhões, convivem com uma contradição cada vez mais visível: quase 1 milhão de pessoas vivem em situação de rua. Em 2024, o número de cidadãos sem moradia atingiu o maior patamar desde o início das medições oficiais, escancarando uma crise estrutural em uma das economias mais poderosas do mundo.
Dados do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos EUA (HUD) apontam que 771.480 americanos estavam em situação de rua em uma única noite de 2024. O número representa cerca de 23 pessoas a cada 10 mil habitantes vivendo em abrigos, veículos ou completamente desabrigadas.
Estados como Califórnia e Nova York concentram os maiores contingentes. A Califórnia registra 187 mil pessoas sem-teto, enquanto Nova York ultrapassa 158 mil — proporção ainda mais elevada em relação à população. No Havaí, a situação se agravou rapidamente: a taxa quase dobrou entre 2019 e 2024.
Falta de moradia acessível é o núcleo do problema
Especialistas apontam que a crise da população em situação de rua nos Estados Unidos está diretamente ligada à escassez de habitação acessível. Segundo o economista Sam Khater, da Freddie Mac, o país acumulava, no fim de 2020, um déficit de 3,8 milhões de unidades habitacionais, número que cresceu de forma acelerada nos últimos anos.
Entre os principais fatores estão:
- Escassez de mão de obra na construção civil, o que elevou os custos do setor;
- Alta no preço dos materiais, com a madeira chegando a registrar aumento superior a 150% durante a pandemia;
- Demanda crescente por moradia, que pressiona preços e reduz ainda mais a oferta.
O impacto é mais severo no segmento de imóveis populares. Na década de 1980, cerca de 40% das novas casas construídas nos EUA eram consideradas de entrada. Em 2019, esse percentual caiu para aproximadamente 7%.
O avanço da crise também derruba estigmas históricos. Ao contrário da imagem associada exclusivamente a dependência química ou transtornos mentais, uma parcela crescente da população sem-teto é formada por trabalhadores formais que não conseguem pagar aluguel ou comprar um imóvel.
Mesmo famílias com renda estável enfrentam dificuldades diante da combinação de salários estagnados, inflação e aluguéis recordes. Em muitos casos, a moradia simplesmente não existe no mercado, independentemente da capacidade de pagamento.
Um problema global que atinge até países ricos
A Organização das Nações Unidas estima que, no mundo, entre 1,6 bilhão e 3 bilhões de pessoas não tenham acesso a moradia adequada, e mais de 330 milhões vivam em situação de rua extrema. Embora conflitos armados expliquem parte do problema em países como Síria, Sudão e Iêmen, o crescimento da população sem-teto em economias desenvolvidas revela uma falha sistêmica.
Nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Alemanha, o fenômeno mostra que riqueza nacional não se traduz automaticamente em segurança social.
Autoridades e especialistas concordam que não há uma solução única. A crise envolve políticas habitacionais, saúde mental, mercado de trabalho, planejamento urbano e financiamento público. Desastres naturais, crises sanitárias e deslocamentos forçados também contribuem para agravar o cenário.




