Moradores de regiões próximas a rios no estado de Washington, nos Estados Unidos, têm sido surpreendidos por uma cena incomum: helicópteros transportando e lançando grandes troncos diretamente na água. Apesar do susto inicial e das imagens impressionantes, a ação não tem relação com acidentes ou obras emergenciais, mas com um ambicioso projeto de restauração fluvial considerado um dos maiores já realizados no noroeste do país.
A iniciativa pretende corrigir impactos ambientais causados por decisões adotadas ao longo do século passado, quando troncos e obstáculos naturais eram removidos dos cursos d’água sob a ideia de que rios “limpos” e rápidos seriam mais saudáveis.
O projeto prevê a distribuição de mais de 6 mil troncos ao longo de cerca de 38 quilômetros de rios e riachos, especialmente em áreas da Reserva Yakama e em terras tradicionalmente utilizadas pelo povo indígena da região. A logística exige o uso de helicópteros porque muitos desses trechos hoje são de difícil acesso por estrada.
Segundo biólogos e especialistas em ecossistemas aquáticos, a retirada dos troncos no passado simplificou demais os rios, reduzindo drasticamente a biodiversidade. A madeira submersa cria refúgios naturais, áreas de reprodução e proteção para espécies como salmões, trutas e peixes ameaçados, além de favorecer o crescimento de algas e insetos que sustentam a cadeia alimentar.
“Na época, achávamos que grandes troncos eram barreiras para os peixes. Hoje sabemos que eles são essenciais para a complexidade do habitat”, explicou Scott Nicolai, biólogo da Nação Yakama, em entrevista à emissora pública Oregon Public Broadcasting.

Benefícios ambientais vão além da fauna
Além de servir de abrigo para peixes, os troncos ajudam a reduzir a velocidade da água, espalhá-la pelas planícies alagáveis e permitir maior infiltração no solo. Isso contribui para recarregar aquíferos subterrâneos e manter os rios mais frios e com fluxo constante durante períodos de seca e calor intenso — um fator cada vez mais crítico diante das mudanças climáticas.
Estudos apontam que a remoção da madeira, somada a práticas como superpastoreio, construção de ferrovias e exploração madeireira intensiva, levou ao ressecamento dos rios e à queda das populações de animais aquáticos ao longo das décadas.
Projeto une ciência, tradição e simbolismo
A madeira utilizada vem de projetos de manejo florestal e desbaste liderados por organizações ambientais, como a The Nature Conservancy, incluindo espécies como abeto de Douglas, cedro e abeto-grande. Parte desse material poderia ter sido comercializada, mas foi destinada à restauração dos rios.
Para os líderes indígenas da Nação Yakama, a ação vai além da ciência. Durante uma das operações aéreas, membros da comunidade realizaram cerimônias e orações às margens do rio Little Naches, marcando o retorno de elementos considerados parte essencial da paisagem ancestral.
Embora a visão de helicópteros despejando troncos em rios tenha causado estranhamento e apreensão entre moradores, especialistas reforçam que a prática é segura, planejada e baseada em evidências científicas.




