A Suécia caminha para se tornar o primeiro país do mundo a praticamente eliminar o uso de dinheiro em papel. Dados do Banco Central sueco (Sveriges Riksbank) indicam que o uso de cédulas e moedas deve se tornar residual até 2030, consolidando um modelo em que cartões, aplicativos e moedas digitais serão as principais — e em muitos casos únicas — formas de pagamento aceitas por estabelecimentos comerciais.
Atualmente, apenas 8% da população utilizou dinheiro em espécie nos últimos anos, e a quantidade de cédulas em circulação caiu pela metade desde 2007. Em grande parte do país, transportes públicos, lojas, restaurantes e até bancos já não aceitam mais pagamentos em dinheiro.
A transformação é impulsionada por uma combinação de fatores: forte digitalização da economia, confiança elevada no sistema bancário e ampla adoção de tecnologias financeiras. Hoje, mais de 80% dos suecos usam o aplicativo Swish, criado por bancos locais em 2012, que permite transferências instantâneas pelo celular.
Além disso, sistemas como BankID, identificação digital usada para acessar serviços públicos, bancos e até consultas médicas, tornaram o dinheiro físico praticamente desnecessário no dia a dia. Cartões, carteiras digitais, pagamentos biométricos e transferências instantâneas dominam o consumo.
Segundo o relatório de pagamentos do Riksbank de 2024, o mercado financeiro sueco movimenta ativos equivalentes a 12 vezes o PIB do país, com forte presença de bancos tradicionais e gigantes fintechs como Klarna, Tink e Trustly.

Liberdade de aceitar — ou não — dinheiro
Um ponto-chave da experiência sueca é a legislação. Diferentemente de muitos países, não existe obrigação legal para que estabelecimentos aceitem dinheiro vivo. A lei prioriza a chamada “liberdade contratual”, permitindo que empresas escolham quais meios de pagamento utilizar.
Na prática, isso acelerou o desaparecimento do dinheiro físico. Hoje, não há infraestrutura para pagar contas presencialmente em guichês, e caixas eletrônicos estão cada vez mais raros.
Apesar da eficiência, o modelo levanta preocupações. O próprio Banco Central sueco alerta para riscos de exclusão social, especialmente entre idosos, pessoas de baixa renda, refugiados, indivíduos com transtornos mentais e cidadãos sem acesso a tecnologia ou contas bancárias.
Pesquisas mostram que parte da população vive em uma espécie de “bolha do dinheiro”, conseguindo pagar apenas por serviços muito básicos. Pessoas sem acesso digital enfrentam dificuldades para pagar estacionamento, contas médicas e serviços essenciais — e, em alguns casos, dependem de voluntários para realizar operações bancárias.
“É caro ser pobre em uma sociedade digital”, resume um dos relatos coletados por pesquisadores. Há ainda o estigma social: para muitos, o dinheiro físico passou a ser associado à criminalidade ou à informalidade.
Desafios para um futuro sem cédulas
Outro ponto sensível é a segurança do sistema. O Riksbank reconhece riscos relacionados a fraudes digitais, ataques cibernéticos, crises, guerras e falhas de infraestrutura. A dependência quase total de sistemas privados e digitais levanta o debate sobre resiliência em situações extremas.
“O mercado de pagamentos sueco se digitalizou muito rapidamente. Agora precisamos garantir que todos consigam pagar, mesmo em cenários de crise”, afirma o banco central em seu relatório.
Enquanto o país discute a criação de uma moeda digital oficial para reforçar a soberania monetária, o fim do dinheiro físico parece cada vez mais próximo.




