A indústria automotiva brasileira acaba de ganhar um novo protagonista. A montadora chinesa Great Wall Motors (GWM) confirmou um investimento de R$ 10 bilhões no Brasil até 2032, em um movimento que consolida a presença do grupo no país e reposiciona o Espírito Santo no mapa global da produção de veículos. O aporte é um dos maiores já anunciados por uma fabricante chinesa no mercado nacional e vai muito além da abertura de uma nova fábrica.
O compromisso foi formalizado na China, durante encontro entre o vice-governador capixaba Ricardo Ferraço e Jack Wei, fundador e chairman da GWM, com participação do governador Renato Casagrande por videoconferência. Na disputa para sediar a nova planta, o Espírito Santo superou estados tradicionalmente ligados ao setor automotivo, como Paraná e Santa Catarina.
O município de Aracruz, no Norte do Espírito Santo, desponta como o local mais provável para a instalação da nova unidade industrial. A escolha é estratégica. A região reúne três portos, acesso direto à BR-101, proximidade com aeroportos e incentivos fiscais ligados à Sudene — um pacote logístico que reduz custos e facilita tanto a produção quanto a exportação.
Até então, o estado funcionava como porta de entrada dos veículos importados da GWM. Só em 2025, mais de 45 mil carros da marca desembarcaram pelos portos capixabas. Agora, o Espírito Santo passa a integrar a cadeia produtiva, tornando-se base industrial da montadora.
O anúncio ocorre em meio a uma ofensiva mais ampla das montadoras chinesas no Brasil. Recentemente, a BYD apresentou a primeira etapa de seu complexo industrial em Camaçari (BA), com investimento de R$ 5 bilhões. A entrada definitiva da GWM nessa corrida reforça a transformação do país em um polo estratégico para a indústria automotiva global.
Do desembarque à produção nacional
Atualmente, a GWM já opera no Brasil com a fábrica de Iracemápolis (SP), inaugurada em 2025, com capacidade inicial de 50 mil veículos por ano. A nova etapa do plano prevê expansão de volume, redução de custos e produção de modelos mais acessíveis.
O cronograma de investimentos está dividido em duas fases:
- R$ 4 bilhões até 2026, dos quais metade já foi aplicada desde 2021, incluindo a abertura da fábrica paulista e a contratação de cerca de 700 funcionários;
- R$ 6 bilhões entre 2027 e 2032, voltados à nova planta, à criação de um centro de engenharia, pesquisa e desenvolvimento e ao lançamento de novos produtos.
Os resultados sustentam a aposta. Em 2025, a GWM vendeu 42.785 veículos no Brasil, superando a meta interna em 22% e registrando crescimento de 46% em relação ao ano anterior.
Estratégia industrial e foco em eletrificação
Diferentemente de outras montadoras chinesas, a GWM aposta na produção local com uso direto de peças importadas, e não apenas na montagem de kits. A empresa também já está inscrita no programa federal Mover, que oferece incentivos fiscais para fabricantes que investem em veículos híbridos e elétricos.
A estratégia inclui acelerar a nacionalização de componentes, ampliar a escala produtiva e, em uma fase posterior, exportar veículos para países do Mercosul e da América do Sul. A capacidade instalada da nova unidade pode chegar a 100 mil veículos por ano, embora o início deva ocorrer com metade desse volume.
Com foco no segmento de SUVs tecnológicos, a GWM trabalha hoje com modelos que partem da faixa dos R$ 199 mil, podendo ultrapassar R$ 325 mil nas versões mais sofisticadas.




