Jantar tarde e ir direto para a cama pode parecer inofensivo, mas a ciência aponta que esse hábito pode estar diretamente ligado à insônia e à má qualidade do sono. Pesquisas recentes mostram que comer próximo ao horário de dormir interfere em processos biológicos essenciais para o descanso profundo, além de favorecer ciclos de cansaço mental, fome emocional e maior consumo de alimentos pouco saudáveis.
Um amplo estudo conduzido pelas universidades de Loughborough e Leicester, no Reino Unido, analisou os hábitos alimentares e de sono de 27.263 adultos. Publicada na revista científica Appetite, a pesquisa revelou que pessoas que dormem mal ou menos de sete horas por noite têm maior propensão a comer por tédio, estresse ou emoções negativas.
Os dados mostram que os piores dormidores apresentaram até 3,5 vezes mais chances de comer em situações de estresse ou tédio. Além disso, quem dormia menos de sete horas tinha 47% mais probabilidade de pular refeições e 24% mais chances de exagerar na quantidade de comida.
Outro achado relevante foi a associação entre sono ruim e escolhas alimentares: essas pessoas consumiam alimentos fritos de 10% a 21% mais vezes e doces de 10% a 39% com maior frequência.
O papel do relógio biológico
Especialistas explicam que o sono depende do alinhamento do organismo com os ritmos circadianos — o chamado relógio biológico, que regula funções como digestão, liberação hormonal e descanso celular. Comer tarde pode atrasar esse “modo noturno” do corpo.
À noite, o aumento da melatonina, hormônio que induz o sono, reduz a liberação de insulina. Quando uma refeição pesada acontece nesse período, a digestão se torna menos eficiente, o açúcar no sangue pode permanecer elevado e o organismo entra em um estado de alerta justamente quando deveria desacelerar.
Esse descompasso ajuda a explicar por que muitas pessoas relatam dificuldade para pegar no sono ou sensação de descanso insuficiente após comer tarde.
Comer cedo resolve o problema? Nem sempre
Outra linha de pesquisa avaliou se antecipar o horário das refeições melhora o sono. Um estudo controlado com cerca de 200 adultos com sobrepeso ou obesidade, realizado na Espanha, acompanhou participantes que seguiram diferentes janelas alimentares por 12 semanas.
O grupo foi dividido entre quem comia mais cedo, mais tarde ou em horários flexíveis, mantendo dietas semelhantes. O sono foi monitorado com sensores de movimento no pulso, que registraram horários de dormir, acordar e despertares noturnos.
O resultado surpreendeu: o horário das refeições, por si só, não gerou mudanças significativas na duração ou qualidade do sono. Quem jantava mais cedo dormiu, em média, apenas 12 minutos a mais do que o grupo controle — uma diferença considerada irrelevante pelos pesquisadores.
As evidências sugerem que não existe uma solução única. Comer muito próximo da hora de dormir, especialmente refeições grandes e ricas em gordura ou açúcar, pode prejudicar o sono e favorecer ciclos de estresse e fome emocional. Por outro lado, apenas antecipar o jantar, sem mudanças no estilo de vida, não garante noites melhores.




