Ambulantes flagrados vendendo latinhas de Xeque Mate nos circuitos oficiais do Carnaval de São Paulo correm o risco de perder o credenciamento. A restrição ocorre porque a Ambev, patrocinadora master da festa desde 2017, detém o direito exclusivo de comercializar suas marcas nos blocos de rua da capital paulista — investimento que, neste ano, chegou a R$ 29,2 milhões.
No modelo adotado pela Prefeitura de São Paulo, toda a estrutura do Carnaval — incluindo segurança, limpeza urbana, postos médicos e logística — é financiada pela iniciativa privada. Em contrapartida, a patrocinadora principal passa a controlar a cadeia de venda de bebidas nos circuitos oficiais.
A Ambev é responsável por credenciar cerca de 15 mil ambulantes autorizados a comercializar apenas produtos do seu portfólio, como Skol, Beats, Corona, Budweiser e Guaraná Antarctica. Quem for flagrado vendendo marcas fora da lista pode perder a autorização para trabalhar durante a festa.
Mesmo com a fiscalização da Guarda Civil Metropolitana, muitos vendedores escondem latas de Xeque Mate sob camadas de gelo e outras bebidas oficiais, numa prática que virou espécie de “contrabando informal” dentro dos blocos.
Xeque Mate vira símbolo de resistência
Produzida em Minas Gerais, a Xeque Mate ganhou popularidade nos últimos anos, especialmente no Carnaval, por ter teor alcoólico mais elevado — cerca de duas vezes maior que o da cerveja — e identidade alternativa.
Proibida oficialmente nos circuitos patrocinados, a bebida se espalhou de forma discreta entre os foliões, transformando-se em símbolo de resistência ao modelo de exclusividade adotado na capital paulista.
O crescimento da marca evidencia uma contradição: enquanto o Carnaval de São Paulo se consolida como o maior do país em público — com expectativa de 16 milhões de foliões em 2026 — o controle comercial rígido limita a diversidade de marcas nas ruas.

O modelo de exclusividade também influencia o financiamento dos blocos. Colocar um bloco médio ou grande na rua custa entre R$ 250 mil e R$ 450 mil, enquanto o fomento público cobre apenas parte desse valor.
Como a patrocinadora principal concentra a exploração comercial, blocos não podem negociar diretamente com marcas concorrentes para captar recursos. A maior parte do patrocínio privado acaba direcionada aos megablocos, impulsionados por artistas de grande alcance digital.
Blocos tradicionais ou comunitários relatam dificuldade crescente para fechar parcerias e manter a estrutura, tornando-se cada vez mais dependentes do modelo centralizado.
Tentativas de compensação
Diante das críticas, a patrocinadora lançou editais de apoio a blocos de pequeno e médio porte. No entanto, organizadores afirmam que os programas ainda representam uma fração do custo real da festa.
Enquanto isso, marcas independentes buscam alternativas, como apoiar blocos fora da programação oficial — os chamados blocos independentes ou “secretos” — que não estão submetidos às regras de exclusividade.
A gestão compartilhada entre Prefeitura e patrocinadora garante escala logística e organização ao Carnaval paulistano. A Ambev também explora outras cotas de patrocínio e comercializa espaços para marcas parceiras.




