Hoje protagonista da nova corrida espacial e concorrente direta dos Estados Unidos, a China nem sempre ocupou posição de liderança no setor. Nos anos 1980, quando ainda estruturava seu programa espacial, o país asiático buscou no Brasil parte do conhecimento que ajudaria a impulsionar sua trajetória tecnológica.
Cientistas chineses vieram ao Brasil para aprender com pesquisadores que haviam feito estágio na Nasa. O intercâmbio marcou o início de uma cooperação que se tornaria referência internacional em parcerias entre países em desenvolvimento.
A aproximação ganhou força com a assinatura do Acordo de Cooperação Científica e Tecnológica, em 1984. A iniciativa foi considerada pioneira dentro do modelo de cooperação Sul-Sul, envolvendo principalmente Brasil, China e, em outros projetos, a Argentina.
O marco mais conhecido dessa parceria é o programa CBERS (Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres). Após pouco mais de uma década de trabalho conjunto, o primeiro satélite foi lançado com sucesso em 1999, a partir da China.

Até hoje, os satélites desenvolvidos pelos dois países são utilizados no monitoramento do desmatamento da Amazônia, na previsão meteorológica e no apoio ao agronegócio. Segundo Marco Antonio Chamon à CNN, presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), o CBERS continua sendo uma referência mundial de cooperação tecnológica entre países do Sul Global.
Caminhos diferentes ao longo das décadas
Desde os anos 1980, Brasil e China passaram por transformações econômicas profundas. A China se consolidou como a segunda maior economia do mundo, alcançando um PIB de US$ 17,73 trilhões em 2021, com crescimento robusto mesmo após a pandemia.
O Brasil, por sua vez, registrou expansão até 2011, mas enfrentou forte retração entre 2015 e 2016 e nova queda em 2020, impactado pela crise sanitária. Embora tenha apresentado recuperação em 2021, o país permaneceu em patamar inferior ao dos anos anteriores.
Para o professor da UERJ e especialista em relações China-Brasil, Maurício Santoro, o programa espacial chinês recebeu prioridade estratégica do governo e investimentos crescentes ao longo dos anos.
“O programa espacial se manteve como algo importante para o governo chinês e ganhou mais recursos. A China foi capaz de prosperar. O Brasil manteve seu programa, que é relevante, mas não alcançou o nível de sofisticação tecnológica que os chineses atingiram nas últimas décadas”, afirmou em entrevista à CNN Brasil.
Segundo ele, um diferencial foi a capacidade dos cientistas chineses de se articularem politicamente dentro do governo do Partido Comunista Chinês, garantindo continuidade e financiamento aos projetos.
Parceria continua no século XXI
Apesar das diferenças no ritmo de avanço tecnológico, a cooperação entre os dois países segue ativa. Em 2025, Brasil e China anunciaram a construção de um novo laboratório conjunto voltado ao desenvolvimento de tecnologias espaciais, com participação da estatal chinesa CETC.

O projeto está ligado a iniciativas científicas mais amplas na América do Sul, incluindo planos para grandes telescópios na região.




