Estudos recentes indicam que pessoas nascidas após os anos 1990 podem apresentar desempenho médio mais baixo em testes de QI em comparação com gerações anteriores. O fenômeno contraria uma tendência histórica observada ao longo do século XX, conhecida como Efeito Flynn, segundo a qual o quociente de inteligência médio da população vinha aumentando de forma contínua ao longo das décadas.
A possível reversão dessa curva tem sido chamada por pesquisadores de “efeito Flynn reverso” e tem gerado debates entre especialistas em educação, neurociência e políticas públicas.
O QI (quociente de inteligência) é um indicador obtido por meio de testes padronizados que avaliam raciocínio lógico, resolução de problemas e capacidade de interpretação.
Desde o fim do século XIX, quando medições padronizadas começaram a ser aplicadas, os resultados mostravam que cada nova geração superava a anterior em desempenho médio. Essa evolução foi atribuída a fatores como melhoria na nutrição, ampliação do acesso à educação e maior estímulo cognitivo.
No entanto, pesquisas recentes sugerem que essa tendência pode ter desacelerado — ou até se invertido — entre os nascidos a partir da década de 1990.
Impacto da tecnologia e mudanças no aprendizado
Durante audiência no Congresso dos Estados Unidos, o neurocientista cognitivo Jared Cooney Horvath afirmou que dados atuais apontam que crianças e adolescentes de hoje demonstram desempenho cognitivo inferior ao das gerações anteriores na mesma faixa etária.
Segundo ele, o problema não estaria apenas na qualidade do ensino, mas em uma possível incompatibilidade entre a forma como o cérebro humano evoluiu para aprender — com foco profundo, leitura prolongada e interação presencial, e o atual padrão de consumo digital fragmentado, baseado em vídeos curtos, resumos e navegação constante em telas.
Pesquisas apresentadas no debate indicam que estudantes expostos a longos períodos diários de uso de computadores em sala de aula tendem a apresentar desempenho inferior em comparação com colegas com menor tempo de exposição às telas. Dados da Avaliação Nacional de Progresso Educacional dos EUA também mostraram estagnação ou queda em estados que implementaram programas individuais de dispositivos eletrônicos para alunos.
Especialistas classificaram o cenário como uma “emergência social”, sugerindo limites para o uso de smartphones por crianças e revisão da integração massiva de tecnologia na educação.
Além da tecnologia, pesquisadores apontam outros elementos que podem influenciar os resultados:
- Mudanças na qualidade do ensino
- Alterações nos padrões de nutrição
- Menor confiança das novas gerações na realização de testes
- Transformações culturais e comportamentais
Estudos também descartaram teorias que associavam a queda média de QI à imigração, ressaltando que esse tipo de explicação foi amplamente refutado e pode alimentar discursos discriminatórios.
Inteligência vai além dos testes
Especialistas alertam que o QI mede apenas aspectos específicos da cognição e não captura toda a complexidade da inteligência humana. Habilidades como criatividade, empatia, pensamento crítico e adaptação social nem sempre são refletidas nesses exames.
Diante das mudanças sociais e tecnológicas das últimas décadas, pesquisadores defendem que a discussão deve ir além da simples comparação numérica entre gerações, buscando compreender como os ambientes atuais estão moldando novas formas de aprender e pensar.




