A onça-pintada pode desaparecer da Mata Atlântica caso medidas urgentes não sejam adotadas. Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros aponta que a escassez de presas do maior felino das Américas atingiu níveis críticos, inclusive dentro de áreas oficialmente protegidas.
Os dados, divulgados com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e publicados na revista Global Ecology and Conservation, indicam que restam menos de 300 onças-pintadas (Panthera onca) em todo o bioma. Se o cenário persistir, a Mata Atlântica poderá se tornar o primeiro bioma do mundo a registrar a extinção local de um predador de topo de cadeia alimentar.
A pesquisa analisou a disponibilidade de 14 espécies que compõem a base alimentar da onça-pintada em nove áreas protegidas da Mata Atlântica. O levantamento foi feito por meio de armadilhas fotográficas e cruzamento de dados sobre dieta e hábitos do animal.
Os resultados mostram uma queda expressiva na abundância de presas de médio e grande porte, como:
- Porcos-do-mato (Tayassu pecari)
- Catetos (Dicotyles tajacu)
- Cervídeos (veados)
Segundo os pesquisadores, essas espécies vêm sendo pressionadas pela caça ilegal, o que reduz drasticamente a oferta de alimento para as onças.

Diferença abismal entre regiões
O estudo identificou forte contraste entre áreas mais preservadas e regiões com maior presença humana.
No chamado Corredor Verde — onde há maior conectividade entre unidades de conservação e ações contínuas de combate à caça, como o Projeto Onças do Iguaçu — a biomassa de presas chegou a 638 quilos.
Já na Mata Atlântica costeira, incluindo trechos da Serra do Mar, o índice caiu para apenas 8,2 quilos — uma diferença considerada crítica pelos pesquisadores. Nessas áreas, a presença da onça-pintada é inexistente ou extremamente rara.
A pesquisa aponta que a facilidade de acesso às áreas protegidas, especialmente nas regiões próximas a grandes centros urbanos como São Paulo e Curitiba, contribui para a caça ilegal e para o declínio das espécies que servem de alimento ao felino.
Risco real de extinção local
A Mata Atlântica cobre cerca de 15% do território brasileiro e se estende por 17 estados das regiões Sul, Sudeste e Nordeste, além de áreas na Argentina e no Paraguai. Mesmo sendo um dos biomas mais protegidos do país, enfrenta fragmentação histórica e forte pressão antrópica.
Os pesquisadores alertam que, sem medidas drásticas para conter a caça ilegal e recuperar populações de presas, a onça-pintada pode desaparecer definitivamente da região.
A perda do maior predador da cadeia alimentar teria impacto profundo no equilíbrio ecológico, afetando o controle populacional de outras espécies e alterando a dinâmica dos ecossistemas.




