Estudo de pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) aponta que a implementação da Tarifa Zero no transporte público das capitais brasileiras poderia injetar mais de R$ 60 bilhões por ano na economia e funcionar como uma espécie de “salário indireto” para milhões de trabalhadores.
Uma pesquisa inédita divulgada nesta semana por especialistas colocou novamente em debate a possibilidade de implantação da Tarifa Zero no transporte público brasileiro. Segundo o levantamento, a gratuidade nos ônibus, metrôs e trens urbanos das 27 capitais e regiões metropolitanas teria potencial para movimentar R$ 60,3 bilhões anuais na economia, valor comparável aos principais programas sociais do país.
O estudo faz parte da pesquisa “Tarifa Zero e suas possibilidades de expansão no Brasil”, coordenada pelo professor Thiago Trindade, do Instituto de Ciência Política da UnB. O material aponta que a medida poderia funcionar como uma espécie de benefício indireto mensal para trabalhadores e famílias de baixa renda, já que reduziria significativamente os gastos com deslocamento diário.
De acordo com os pesquisadores, o valor médio das passagens urbanas no país gira em torno de R$ 4,50. Com isso, um trabalhador que utiliza transporte público diariamente poderia economizar entre R$ 8 e R$ 10 por dia apenas com ida e volta ao trabalho, o que representaria um alívio importante no orçamento doméstico ao longo do mês.
Impacto econômico e redução das desigualdades
O levantamento compara o potencial distributivo da Tarifa Zero ao de programas sociais consolidados. Segundo os dados apresentados, o Bolsa Família movimenta atualmente cerca de R$ 57,9 bilhões anuais nas capitais e regiões metropolitanas, enquanto a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para salários de até R$ 5 mil representaria uma economia estimada de R$ 25,4 bilhões aos trabalhadores.
Os pesquisadores defendem que a gratuidade no transporte não deve ser vista apenas como uma política de mobilidade urbana, mas também como ferramenta de redistribuição de renda e combate às desigualdades sociais. O estudo destaca ainda que o peso do transporte público é proporcionalmente maior para famílias de baixa renda, moradores das periferias e população negra.
Segundo Thiago Trindade, a cultura brasileira ainda associa o direito de circulação à capacidade financeira da população. Para os autores, a Tarifa Zero poderia alterar essa lógica e ampliar o acesso da população às cidades, ao emprego, ao lazer e aos serviços públicos.
O estudo também mostra preocupação com a crise do transporte coletivo no Brasil. Entre 2013 e 2023, o setor perdeu cerca de 30% dos passageiros, enquanto a frota de carros cresceu 44% e a de motocicletas aumentou 58% no mesmo período.
Governo federal avalia viabilidade
O debate sobre a implantação nacional da Tarifa Zero ganhou força dentro do governo federal nos últimos meses. Em fevereiro, o então ministro das Cidades, Jader Filho, confirmou que o governo estudava alternativas para viabilizar a gratuidade no transporte público urbano em todo o país.
Segundo ele, por determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Ministério da Fazenda iniciou análises sobre possíveis modelos de financiamento do sistema. Entre as alternativas debatidas pelos pesquisadores está a substituição do vale-transporte por uma contribuição fixa das empresas, inspirada em modelos já utilizados na França.
Um estudo anterior estimou que o custo anual da gratuidade universal em ônibus urbanos nas cidades com mais de 50 mil habitantes ficaria em torno de R$ 78 bilhões. Quando incluídos metrôs, trens e VLTs, o valor poderia variar entre R$ 90 bilhões e R$ 93 bilhões por ano.




