O avanço do fenôeno climático El Niño voltou a preocupar meteorologistas e autoridades brasileiras após novos modelos internacionais indicarem alta probabilidade de formação do evento climático ainda no segundo semestre de 2026. No Nordeste, especialistas alertam para risco maior de estiagem, temperaturas elevadas e aumento dos focos de incêndios florestais, principalmente em áreas do semiárido.
Segundo nota técnica divulgada pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, o Ceará possui cerca de 60% de chances de enfrentar um El Niño forte entre outubro e dezembro deste ano. O cenário é considerado preocupante principalmente pelos possíveis reflexos sobre a quadra chuvosa de 2027.
O fenômeno ocorre quando há aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, alterando padrões atmosféricos em diversas regiões do planeta. Dados atualizados do modelo climático CFSv2, utilizado por meteorologistas norte-americanos, indicam que o aquecimento do Pacífico deve se consolidar nos próximos meses e permanecer ativo até o fim de 2026 ou começo de 2027.
Além disso, a NOAA, agência climática dos Estados Unidos, elevou para 82% a probabilidade de confirmação do El Niño no segundo semestre.

Nordeste pode enfrentar seca e aumento de incêndios
Os modelos climáticos apontam que Norte e Nordeste tendem a registrar redução das chuvas e temperaturas acima da média histórica durante a atuação do fenômeno.
De acordo com a Funceme, o El Niño também pode ampliar o risco de incêndios florestais por causa da menor nebulosidade e do aumento da energia térmica disponível na atmosfera. A preocupação é maior em áreas da Amazônia e do semiárido nordestino.
O alerta ocorre poucos meses após diversos estados nordestinos registrarem chuvas acima da média. Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Sergipe tiveram acumulados elevados entre abril e maio deste ano. Com o fortalecimento do fenômeno, porém, a tendência é de redução gradual das precipitações nos próximos meses.
O meteorologista Gilvan Sampaio, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, afirma que ainda é cedo para definir a intensidade do fenômeno, já que os modelos climáticos enfrentam maior instabilidade durante os períodos de transição atmosférica, como outono e primavera.
Segundo ele, o El Niño só é oficialmente configurado quando o aquecimento das águas do Pacífico persiste por alguns meses e provoca alterações também na circulação atmosférica, especialmente nos ventos alísios ao longo da Linha do Equador.
Sul pode ter temporais e enchentes
Enquanto Norte e Nordeste devem enfrentar menos chuva, a previsão para a região Sul é oposta. Meteorologistas indicam possibilidade de aumento significativo das precipitações, com risco de temporais, enchentes e eventos extremos semelhantes aos registrados recentemente no Rio Grande do Sul.
Os modelos apontam que o pico de intensidade do El Niño poderá ocorrer entre setembro e dezembro, período considerado mais crítico para os impactos climáticos associados ao fenômeno.
Especialistas também alertam que o El Niño influencia diretamente temperaturas, produção agrícola, reservatórios hídricos e ocorrência de desastres ambientais em várias partes do Brasil.
Gilvan Sampaio ressalta ainda que os efeitos do fenômeno vêm sendo potencializados pelas mudanças climáticas globais.
“Os eventos extremos associados ao El Niño acabam sendo intensificados pelo aquecimento global”, afirmou o pesquisador do Inpe.
Monitoramento seguirá nos próximos meses
As previsões climáticas continuarão sendo atualizadas nas próximas semanas à medida que novos dados oceânicos e atmosféricos forem incorporados aos modelos internacionais.
Meteorologistas destacam que junho deverá trazer maior precisão sobre a possível intensidade do fenômeno e seus impactos efetivos no território brasileiro ao longo de 2026 e 2027.



