A Bolívia deve encerrar 2026 com o pior desempenho econômico da América do Sul e de toda a América Latina, segundo o relatório “Perspectivas Econômicas Globais”, divulgado pelo Banco Mundial. A instituição projeta uma retração de 3,2% do Produto Interno Bruto (PIB) boliviano neste ano, aprofundando a recessão iniciada em 2025, quando a economia encolheu 1,6%.
O cenário coloca o país em uma situação mais delicada que a de seus vizinhos e reflete uma combinação de problemas estruturais, como a escassez de dólares, o déficit fiscal, a redução das receitas provenientes do setor de hidrocarbonetos e as dificuldades para manter o crescimento econômico.
A Bolívia enfrenta atualmente a pior crise econômica em quatro décadas. O país convive com inflação anual próxima de 20%, escassez de combustíveis, déficit comercial e desequilíbrio nas contas públicas.
Grande parte da crise é atribuída à queda da produção interna de hidrocarbonetos e à falta de moeda estrangeira necessária para financiar importações. Outro fator que agravou a situação foi o elevado custo dos subsídios aos combustíveis, que consumiam mais de US$ 2 bilhões por ano.
Após assumir a presidência há sete meses, Rodrigo Paz decretou estado de emergência econômica e implementou medidas liberais para tentar equilibrar as contas. Entre elas, promoveu cortes nos subsídios aos combustíveis e apresentou uma controversa reforma agrária, medidas que ampliaram a insatisfação popular.
Protestos já causaram mortes e prejuízos bilionários
A deterioração das condições econômicas desencadeou uma onda de manifestações iniciada em maio. Agricultores, sindicatos e grupos de produtores de coca ligados ao ex-presidente Evo Morales passaram a exigir a renúncia de Rodrigo Paz.
Os bloqueios de estradas se espalharam pelo país e chegaram a atingir cerca de 90 pontos simultaneamente. Embora o número tenha recuado para aproximadamente 50 nos últimos dias, diversas vias estratégicas continuam interditadas.
Em mais de um mês de protestos, quatro pessoas morreram em confrontos com a polícia e mais de 100 foram detidas. As negociações entre governo e manifestantes seguem sem avanços.
Segundo a Câmara Nacional de Exportadores da Bolívia, os bloqueios provocaram prejuízos de US$ 978 milhões ao setor exportador em apenas um mês e meio. Santa Cruz, principal centro econômico do país, é uma das regiões mais afetadas, ao lado de Cochabamba e Oruro.
As manifestações também têm provocado impactos humanitários. Autoridades investigam a morte de caminhoneiros que ficaram retidos nas estradas bloqueadas, enquanto associações da categoria afirmam que pelo menos três motoristas morreram desde o início da crise.
Escassez de combustíveis amplia instabilidade
A crise energética é outro elemento que agrava o cenário econômico. Recentemente, a seguradora estatal Unibienes informou ter desembolsado mais de US$ 13 milhões em indenizações para cerca de 31 mil proprietários de veículos afetados pela distribuição de gasolina contaminada.
O problema atingiu mais de 70 mil automóveis e provocou a renúncia do ministro dos Transportes e de integrantes da direção da estatal petrolífera YPFB.
Caso a projeção do Banco Mundial se confirme, 2026 marcará o segundo ano consecutivo de retração econômica na Bolívia. A combinação entre inflação elevada, falta de divisas, crise energética e instabilidade política tem aumentado as dificuldades para a recuperação do país.



