A Marabraz, uma das tradicionais redes de móveis e eletrodomésticos de São Paulo, entrou com pedido de recuperação judicial para tentar reorganizar uma dívida estimada em R$ 140 milhões. O requerimento foi protocolado no sábado (15) e encaminhado à 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, em caráter de urgência. Até a manhã desta segunda-feira (17), ainda não havia informação pública sobre uma decisão judicial autorizando o processamento da recuperação.
Fundada por uma família de origem libanesa, a empresa chegou a operar 135 lojas espalhadas pela Região Metropolitana de São Paulo, Baixada Santista, Vale do Paraíba e interior paulista. Apesar do pedido, a Marabraz informou que continua funcionando normalmente e que suas unidades permanecem abertas.
Segundo a companhia, a recuperação judicial tem como objetivo reorganizar os compromissos financeiros e preservar empregos, além de manter as relações com clientes, fornecedores e parceiros.

Juros, consumo e comércio eletrônico pressionaram a empresa
Na documentação apresentada à Justiça, a Marabraz aponta uma combinação de fatores para a deterioração de sua situação financeira. Entre eles estão os juros elevados, o aumento do endividamento, a retração do consumo e o crescimento da inadimplência.
O cenário também foi agravado pelas transformações provocadas pela digitalização do comércio. A mudança no comportamento dos consumidores e o avanço das vendas pela internet aumentaram a pressão sobre empresas tradicionais do varejo de móveis e eletrodomésticos.
A companhia afirma ainda que sua operação exige elevado volume de capital de giro. Historicamente, a família recorria ao mercado financeiro para financiar a expansão e manter as atividades, utilizando ativos, especialmente imóveis, como garantias para obtenção de crédito.
Esse mecanismo, porém, acabou sendo afetado pelos conflitos societários e familiares que se prolongaram durante anos.
Disputas familiares atingiram estrutura financeira
A petição apresentada pela empresa aponta que os problemas não foram provocados apenas pelas condições econômicas. Segundo o documento, as disputas dentro da família tiveram consequências diretas sobre a estrutura patrimonial utilizada como garantia nas operações financeiras.
Em meio aos conflitos, os administradores responsáveis pela condução dos negócios teriam perdido o controle sobre sociedades que detinham parte do patrimônio imobiliário. Com isso, o grupo Marabraz deixou de contar com determinadas garantias utilizadas anteriormente para obtenção de crédito.
A situação teria dificultado a renovação de linhas já existentes, a contratação de novas operações financeiras e a manutenção das condições de financiamento.
O resultado foi uma deterioração da estrutura financeira justamente em um período de maior pressão sobre o varejo.
De mascate a uma rede com 135 lojas
A história da empresa começou em São Paulo com Abdul Fares, integrante da família de origem libanesa. Em 1952, ele iniciou um negócio como mascate, comercializando artigos de cama, mesa e banho.
Duas décadas depois, em 1972, surgiu a primeira loja física, chamada Credi-Fares. Após a morte do fundador, em 1986, os filhos assumiram o comando do negócio e adotaram o nome Marabraz.
A partir daí, a empresa entrou em uma fase de expansão acelerada. A rede ampliou sua presença física, adquiriu novos centros de distribuição e investiu em campanhas publicitárias com personalidades conhecidas para fortalecer a marca.
O crescimento transformou a companhia em uma das redes tradicionais do setor no estado de São Paulo.
Conflitos entre herdeiros se prolongaram por décadas
Ao mesmo tempo em que o negócio crescia, a estrutura familiar passou a enfrentar disputas que posteriormente se transformariam em longos conflitos judiciais.
Em 1995, Fábio Fares, um dos herdeiros, teria simulado sua saída da empresa como parte de uma estratégia relacionada a um processo de divórcio. O episódio acabou evoluindo para uma ruptura definitiva em 2005, quando Fábio deixou a companhia e iniciou uma longa disputa judicial com os irmãos.
Anos depois, em 2019, integrantes da segunda geração da família também passaram a fazer parte das disputas. O processo contribuiu para aumentar a complexidade dos conflitos relacionados à administração e ao patrimônio empresarial.
Em 2024, novas acusações envolvendo Abdul e seu pai, Jamel Fares, voltaram a expor as dificuldades de relacionamento dentro da família e as fragilidades na estrutura de governança.
Governança pode ser decisiva em empresas familiares
O histórico da Marabraz também contrasta com modelos de governança adotados por outras grandes empresas familiares brasileiras.
Um exemplo citado nesse contexto é o da família Ermírio de Moraes, ligada ao grupo Votorantim. Em 2001, a criação da holding Hejoassu ajudou a organizar os interesses dos quatro ramos familiares e estabelecer uma separação mais clara entre propriedade e gestão.
No mesmo período, foi criado o Conselho de Família, estruturado como espaço para tratar conflitos e preservar os valores compartilhados pelos integrantes do grupo.
A profissionalização também envolveu a transferência gradual dos acionistas da administração direta para Conselhos de Administração, com participação de integrantes independentes. Outras iniciativas, como o Instituto Votorantim, criado em 2002, e a Reservas Votorantim, em 2012, ampliaram a atuação da família em áreas sociais e ambientais.











