O que durante anos foi considerado um problema nas plantações de café acabou se transformando em uma oportunidade de negócio de alto valor agregado no Espírito Santo. Na Fazenda Camocim, a presença do jacu, ave nativa da Mata Atlântica, deu origem a um dos cafés mais curiosos e exclusivos produzidos no Brasil: o Café Jacu, feito a partir de grãos ingeridos pelo animal e posteriormente encontrados intactos em suas fezes.
O produto é comercializado por cerca de R$ 1.530 o quilo, enquanto uma embalagem de 250 gramas chega a R$ 382. O preço coloca o café em uma faixa muito superior à do produto convencional e também acima de muitos cafés especiais premiados no país.
A peculiaridade do processo está justamente na participação espontânea da ave. O jacu circula livremente pela propriedade e escolhe os frutos que irá consumir. Depois que os grãos passam pelo sistema digestivo do animal, os produtores recolhem manualmente as sementes eliminadas.
O resultado é um produto de produção limitada, marcado pela interação entre a atividade agrícola e o ambiente natural.

Durante muito tempo, encontrar jacus nas plantações significava prejuízo para os produtores. A ave tem preferência justamente pelos frutos mais maduros do cafeeiro, que são os mais aguardados durante o ciclo da produção.
Cada fruto consumido representava uma perda potencial para a colheita. A situação começou a mudar quando os agricultores perceberam que os grãos ingeridos pelo animal eram eliminados praticamente intactos.
Além disso, a passagem pelo sistema digestivo provoca alterações em características químicas e sensoriais da semente. A combinação entre a seleção dos frutos pela ave e as transformações ocorridas durante a digestão passou a ser associada a um perfil diferente de café.
O que antes era interpretado exclusivamente como dano à lavoura passou, então, a ser aproveitado como uma característica de exclusividade.
Ave faz uma seleção natural dos frutos
Uma das particularidades do Café Jacu está na forma como os grãos são escolhidos. Em vez de depender apenas da seleção realizada pelo produtor, o processo começa com o próprio comportamento alimentar do animal.
Os jacus preferem frutos mais vermelhos e maduros, fazendo uma espécie de pré-seleção natural antes que os grãos cheguem ao processamento.
As aves vivem soltas em áreas de Mata Atlântica e não são conduzidas pelos produtores para realizar a seleção. A disponibilidade de alimentos na floresta também influencia o comportamento dos animais, que tendem a procurar os frutos do café especialmente durante o inverno, período em que há menor oferta de outras frutas.
Depois que os jacus eliminam os grãos, começa uma etapa que exige trabalho humano.
As sementes são recolhidas uma a uma no terreno e passam por lavagem, secagem, higienização e torra. O processo é predominantemente manual e exige cuidados adicionais justamente por envolver grãos que foram eliminados pelas aves.
Café brasileiro tem identidade própria
O método costuma ser comparado ao Kopi Luwak, famoso café produzido na Indonésia a partir de grãos que passam pelo sistema digestivo de civetas. Apesar da semelhança, o Café Jacu possui características próprias e está associado ao território brasileiro e ao ambiente em que é produzido.
A participação do animal também ocorre de maneira diferente dos métodos tradicionais de cafés especiais. Nesse caso, a própria ave seleciona os frutos que considera mais adequados para o consumo, enquanto os produtores aproveitam posteriormente os grãos eliminados.
Essa relação com a biodiversidade transforma o produto em uma experiência que vai além da bebida. O café passa a carregar características do território, do cultivo e do comportamento natural da fauna local.
Preço supera o café convencional
Para efeito de comparação, a saca de 60 quilos do café arábica, principal variedade produzida no Brasil, apresenta preços na faixa de R$ 1.700 a R$ 1.900, dependendo da região.
Isso significa que, enquanto o café convencional é negociado em grandes volumes, o produto produzido com a participação dos jacus aposta justamente na escassez e na exclusividade.
A produção limitada, o trabalho manual e o processo incomum ajudam a explicar o valor elevado. Nesse modelo, a presença do animal, que um dia representou uma ameaça à lavoura, tornou-se parte essencial da identidade comercial do produto.











