O mundo atravessa uma transformação geopolítica que pode marcar o fim de uma era iniciada há mais de oito décadas. Analistas e estudiosos da política internacional apontam que a ordem global liderada pelos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial está perdendo força, enquanto a política externa de Donald Trump coloca em xeque compromissos que durante décadas sustentaram alianças, instituições e relações econômicas internacionais.
O período conhecido como Pax Americana, expressão em latim usada para descrever a relativa estabilidade internacional associada à forte liderança militar, econômica e política dos Estados Unidos depois de 1945, pode estar chegando ao fim. Os cenários mais pessimistas preveem uma transição turbulenta, marcada por maior competição entre potências e por uma ordem mundial menos previsível.
Apesar dos alertas, especialistas ressaltam que ainda é cedo para afirmar que o sistema internacional caminhará inevitavelmente para o caos. O declínio relativo da influência norte-americana pode também abrir espaço para uma estrutura mais distribuída de poder, na qual diferentes países e blocos tenham maior participação nas decisões globais.

A mudança na política externa dos Estados Unidos
Desde o retorno à Casa Branca, Donald Trump passou a colocar a política de “America First” no centro da estratégia internacional norte-americana. A proposta parte da ideia de que a força dos Estados Unidos deve ser utilizada prioritariamente para atender aos interesses internos do país.
Na prática, essa orientação envolve o fortalecimento das fronteiras, a revisão das relações comerciais, a redução ou redirecionamento de recursos destinados à assistência internacional e uma cobrança maior para que países diretamente envolvidos em conflitos assumam responsabilidades sobre eles.
Essa mudança representa uma ruptura importante com a tradição de Washington de atuar como principal sustentáculo de instituições multilaterais e alianças internacionais. Durante décadas, os Estados Unidos utilizaram seu peso econômico e militar para influenciar regras comerciais, garantir alianças estratégicas e participar de conflitos e negociações em diferentes regiões do planeta.
Agora, a disposição para exercer esse papel parece menor.
Pax Americana entra em uma fase de incerteza
A ideia de que a Pax Americana estaria chegando ao fim não é consenso absoluto, mas ganhou força entre os analistas mais pessimistas. A avaliação é de que os Estados Unidos já não demonstram a mesma disposiçãom nem necessariamente possuem a mesma capacidade, para exercer uma liderança global tão abrangente quanto aquela consolidada após a Segunda Guerra Mundial.
A imprevisibilidade da atual política externa norte-americana também dificulta projeções para os próximos anos. O próprio comportamento de Trump, frequentemente marcado por mudanças rápidas de posição, faz com que governos estrangeiros tenham dificuldades para antecipar quais serão os próximos movimentos de Washington.
As recentes tensões envolvendo Venezuela e Irã são apontadas como exemplos dessa característica. Ao mesmo tempo em que adota uma postura de confronto em determinados momentos, o governo norte-americano também pode sinalizar abertura para negociações.
O declínio americano também é econômico
A perda relativa de protagonismo dos Estados Unidos pode ser observada também na economia mundial.
No final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a economia norte-americana representava aproximadamente 50% da produção econômica global. O cenário mudou profundamente nas oito décadas seguintes, à medida que outros países reconstruíram suas economias, industrializaram-se e passaram a ocupar posições cada vez mais relevantes.
Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) apresentados pelo índice de Paridade do Poder de Compra (PPC), a China responde em 2026 por cerca de 20% da produção econômica mundial, enquanto os Estados Unidos representam aproximadamente 15% e a União Europeia, 14%.
Isso não significa necessariamente que os Estados Unidos estejam entrando em colapso econômico. Pelo contrário: a expansão de outras economias pode ser interpretada como consequência do próprio crescimento global ocorrido durante o período de predominância norte-americana.
O paralelo com o antigo Império Britânico
Um dos paralelos mais citados pelos estudiosos é o processo enfrentado pelo Reino Unido no século 20.
O país chegou ao final da Segunda Guerra Mundial enfraquecido economicamente, altamente comprometido internacionalmente e com dificuldades para sustentar seu vasto império. Nas décadas seguintes, Londres iniciou um processo de retirada de diversos territórios e reduziu sua esfera de influência.
A comparação ganhou força diante da avaliação de que os Estados Unidos também precisam decidir até onde conseguem sustentar seus compromissos globais.
A diferença, porém, está na forma como essa transição será conduzida.
Uma retirada planejada poderia representar uma redução da esfera de influência norte-americana sem necessariamente provocar uma ruptura internacional.











