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Cientistas analisam mais de 60 mil ossos e encontram partes do crânio e do braço de parentes extintos dos humanos

Por Pedro Silvini
10/09/2026
Em Geral
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caverna escavacao ossos

Foto: (Reprodução/Eddie Gerald/Alamy Stock Photo)

Uma análise de mais de 60 mil fragmentos ósseos encontrados em uma caverna no sudoeste da China levou cientistas a identificar novos restos de denisovanos, incluindo fragmentos do crânio e o primeiro osso do antebraço desse grupo já encontrado. Os fósseis, descobertos na caverna de Bianfu, na província de Yunnan, têm entre aproximadamente 134 mil e 167 mil anos e ajudam a preencher uma importante lacuna sobre a distribuição e as características físicas desses antigos parentes dos seres humanos.

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O estudo foi conduzido por uma equipe liderada pelo professor Fu Qiaomei, do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia (IVPP) da Academia Chinesa de Ciências, em colaboração com pesquisadores de diferentes instituições. A pesquisa foi publicada na revista científica Nature.

Os denisovanos são um grupo de hominínios arcaicos extintos identificado inicialmente por meio de material genético. Em 2010, pesquisadores conseguiram extrair DNA de um pequeno osso de dedo encontrado em uma caverna na Sibéria e, a partir desse material, reconheceram uma linhagem humana até então desconhecida.

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Desde então, evidências genéticas indicaram que esses antigos humanos estiveram espalhados por diferentes partes da Ásia. Entretanto, os fósseis atribuídos ao grupo permanecem extremamente raros, sendo compostos principalmente por dentes e pequenos fragmentos de crânio.

Localização geográfica da caverna e os itens – Imagem: (Reprodução/IVPP)

Estratégia permitiu encontrar restos entre milhares de fragmentos

A quantidade de material arqueológico disponível em Bianfu Cave representou um desafio para os pesquisadores. O sítio paleolítico forneceu mais de 60 mil fragmentos ósseos, o que tornaria demorada e pouco eficiente a análise individual de todas as peças.

Para solucionar o problema, a equipe desenvolveu uma estratégia que combinou uma primeira seleção baseada na morfologia dos ossos com a técnica conhecida como ZooMS, sigla em inglês para Zooarchaeology by Mass Spectrometry, utilizada para identificar restos animais por meio da análise de proteínas.

Foto: (Reprodução/Institute of Vertebrate Paleontology and Paleoanthropology)

O método tem sido empregado para rastrear fósseis de hominínios porque exige pequenas amostras, é relativamente simples, rápido e apresenta custo menor. Ainda assim, a taxa de identificação de restos humanos é extremamente baixa em determinados sítios arqueológicos, chegando a apenas 0,1% em locais como a Caverna de Denisova e a Caverna Cárstica de Baishiya.

Com a triagem inicial, os cientistas reduziram o universo de mais de 60 mil fragmentos para 22 peças consideradas potenciais restos de hominínios. A análise posterior por ZooMS confirmou três desses fragmentos como pertencentes a hominínios: dois pedaços de ossos parietais do crânio, identificados como BFD767 e BFD769, e um fragmento da região proximal de um rádio, denominado BFD771.

Somados a outros restos já encontrados no local, os resultados permitiram confirmar cinco restos de hominínios como pertencentes aos denisovanos por meio de análises paleoproteômicas. A descoberta ajuda a preencher uma lacuna na distribuição conhecida do grupo no sudoeste da China.

Osso do braço revela capacidade física dos denisovanos

Entre os achados, o fragmento do rádio é considerado especialmente importante por representar o primeiro osso de antebraço de um denisovano identificado até hoje. O rádio é um dos ossos que formam o antebraço e se estende do lado do polegar, próximo ao punho, até a região do cotovelo.

Embora apenas a extremidade próxima ao cotovelo tenha sido preservada, o material apresenta uma característica anatômica relevante. O ponto de inserção do bíceps estava localizado mais para trás no osso do que nos seres humanos modernos.

Segundo os pesquisadores, essa configuração poderia permitir que os denisovanos produzissem mais força, considerando um músculo de tamanho equivalente, ao girar o antebraço para posicionar a palma da mão voltada para cima. O achado, portanto, oferece uma rara oportunidade de compreender não apenas onde esses hominínios viveram, mas também algumas características que poderiam ter contribuído para sua adaptação física.

Os fragmentos do crânio também chamaram atenção pela espessura. As peças apresentam entre 0,3 e 0,4 polegada, característica mais próxima do que é observado em Homo erectus e nos neandertais do que nos seres humanos modernos.

Os fósseis encontrados nas diferentes camadas da caverna também ajudam a estabelecer a antiguidade dos ocupantes. Os fragmentos BFD767 e BFD771 foram encontrados na camada 7, que também continha quatro dentes de hominínios e foi datada entre aproximadamente 148 mil e 134 mil anos. Já o fragmento BFD769 veio da camada 9, mais antiga, estimada entre 167 mil e 150 mil anos.

Ferramentas e animais indicam como era o ambiente

Além dos restos humanos, Bianfu Cave revelou ferramentas de pedra que ajudam a reconstruir aspectos do cotidiano dos denisovanos. Os artefatos sugerem uma produção relativamente simples, sem o nível de elaboração observado em algumas ferramentas tradicionalmente associadas ao Homo sapiens.

Em diversos casos, os pesquisadores avaliam que os denisovanos poderiam simplesmente retirar algumas lascas afiadas de uma pedra, utilizá-las e depois abandoná-las. A variedade encontrada indica que havia menor preocupação com a produção de um formato específico ou com técnicas padronizadas.

O ambiente também pode ter influenciado esse comportamento. A presença abundante de restos de animais, incluindo cervos e búfalos, indica que havia disponibilidade significativa de alimentos na região. Mesmo durante os períodos glaciais abrangidos pela idade dos fósseis, o sudoeste da China apresentava condições relativamente amenas.

Esse cenário levanta a possibilidade de que a disponibilidade de recursos tenha reduzido a necessidade de desenvolver ferramentas tão especializadas quanto as que seriam produzidas posteriormente por outras populações humanas.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Pedro Silvini

Pedro Silvini

Jornalista com formação em Mídias Sociais Digitais, colunista de conteúdo social e opinativo. Apaixonado por cinema, música, literatura e cultura regional.

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