Arqueólogos descobriram em Saqqara, no Egito, uma tumba decorada com cerca de 4.350 anos que teria pertencido a Sekhentio-Ptah, um funcionário de alto escalão do Antigo Reino. Entre os principais elementos encontrados estão duas chamadas “portas falsas”, estruturas simbólicas que, segundo as crenças egípcias, permitiriam que a alma do morto transitasse entre o túmulo e o mundo dos vivos.
A descoberta ocorreu na região de Bubasteion, uma área da necrópole de Saqqara conhecida principalmente por sepultamentos de gatos em períodos posteriores. O proprietário da tumba exercia funções ligadas diretamente à administração real e carregava títulos como “supervisor de todas as obras do rei” e “supervisor dos documentos reais”.
Dentro da tumba, os pesquisadores encontraram uma mesa de oferendas, uma bacia utilizada em rituais de purificação e duas portas falsas. Apesar do nome, essas estruturas não eram passagens físicas. Elas representavam uma espécie de portal espiritual por onde o falecido poderia, de acordo com as crenças da época, sair e retornar simbolicamente ao sepulcro.
O formato das portas ajudou os especialistas a estimar a idade da construção. A análise indica que a tumba foi erguida durante o final da Quinta ou o início da Sexta Dinastia, período situado aproximadamente há 4.350 anos.
Outro elemento que chamou atenção foi a presença de mais de 100 shabtis, pequenas figuras que os antigos egípcios acreditavam que poderiam servir o morto no além. Também foram identificados uma estátua de madeira em formato de falcão, possivelmente relacionada ao deus Hórus, e fragmentos de cartonnage, material revestido utilizado na preparação de múmias.
Apesar da riqueza dos achados, a múmia de Sekhentio-Ptah não foi identificada. Especialistas também avaliam que a tumba pode ter sido reutilizada posteriormente para outros sepultamentos, prática comum no Egito Antigo. Nesse caso, parte dos objetos encontrados pode pertencer a ocupantes que foram enterrados no local muito tempo depois de sua construção original.

“Guardião dos segredos” era um cargo administrativo
O título de “guardião dos segredos dos decretos reais” pode dar a impressão de que Sekhentio-Ptah ocupava uma função misteriosa dentro da corte egípcia. A interpretação dos especialistas, porém, aponta para uma atividade essencialmente administrativa.
Ann Macy Roth, professora de egiptologia da Universidade de Nova York que não participou da escavação, explicou ao Live Science que o título provavelmente indicava alguém responsável por documentos reais e pelas pessoas encarregadas de produzi-los. A posição dava acesso a informações confidenciais e era comum entre escribas ligados à administração da realeza.
A tumba, portanto, não apenas registra o sepultamento de um indivíduo de destaque, mas também oferece pistas sobre a estrutura administrativa do Egito durante o período em que grandes projetos monumentais estavam sendo realizados.
Descoberta amplia conhecimento sobre a sociedade egípcia
A nova descoberta integra uma série de trabalhos arqueológicos realizados em Saqqara, uma das principais áreas funerárias do antigo Egito. O local preserva estruturas de diferentes épocas e permite aos pesquisadores acompanhar mudanças nas práticas funerárias, religiosas e administrativas ao longo de milhares de anos.
No caso de Sekhentio-Ptah, as portas falsas representam um dos elementos mais importantes para compreender como os egípcios concebiam a relação entre a vida e a morte. A ideia de que o espírito poderia atravessar simbolicamente esses portais mostra que o túmulo era pensado não apenas como local de sepultamento, mas como um espaço de continuidade da existência do indivíduo após a morte.











