Falar enquanto dorme é um comportamento mais comum do que muitas pessoas imaginam e, na maioria dos casos, não representa um problema grave. O fenômeno, conhecido como sonilóquio, ocorre em diferentes momentos da noite e pode envolver desde murmúrios e sons sem sentido até palavras e frases que seguem uma estrutura semelhante à de uma conversa.
Especialistas explicam que o comportamento está relacionado à maneira como o cérebro funciona durante o sono. Ao longo da noite, o organismo passa por quatro estágios que se repetem em ciclos de aproximadamente 90 minutos. A duração e a sequência dessas fases ajudam a determinar a qualidade do descanso e podem ser alteradas por fatores como falta de sono, mudanças de horário, estresse e ansiedade.
O sono é dividido principalmente entre as fases REM e não REM. Aproximadamente um quarto do período de descanso corresponde ao sono REM, sigla em inglês para movimento rápido dos olhos. É nessa etapa que acontece grande parte dos sonhos, especialmente aqueles que costumam ser lembrados como mais intensos e vívidos.
O sono não REM representa cerca de 75% a 80% da noite e inclui os períodos de sono mais profundo. Neles, o organismo reduz diversas atividades e entra em um estado importante para recuperação física.
Durante esse processo, também ocorrem funções importantes para o organismo. O cérebro consolida memórias, o crescimento acontece de maneira especialmente relevante durante o sono infantil e o sistema imunológico apresenta períodos de maior atividade.

Falar dormindo não significa necessariamente estar sonhando
Uma das questões que despertam interesse científico é justamente a relação entre a fala durante o sono e os sonhos. Pesquisadores analisam o conteúdo produzido enquanto uma pessoa dorme e depois comparam essas falas com os relatos dos sonhos fornecidos após o despertar.
Os estudos encontraram algumas semelhanças entre os dois conteúdos, indicando que a fala durante o sono pode refletir, pelo menos parcialmente, aquilo que está sendo sonhado.
Isso, porém, não significa que toda pessoa que fala dormindo esteja necessariamente sonhando naquele momento. Os sonhos acontecem durante uma parcela relativamente pequena do período total de sono, enquanto a fala pode surgir em diferentes fases da noite.
Por isso, ouvir alguém dizer uma frase durante o sono não permite concluir, por si só, qual era o sonho ou mesmo se havia um sonho acontecendo naquele instante.
Privação de sono e jet lag podem favorecer o comportamento
Entre os principais fatores associados ao aumento da fala durante o sono em adultos estão a privação de sono e as mudanças bruscas no horário de descanso.
O jet lag, por exemplo, ocorre quando uma pessoa atravessa fusos horários e precisa adaptar seu organismo a um novo ciclo de claro e escuro. Alterações semelhantes podem acontecer com mudanças de horário, como as provocadas pelo horário de verão.
Já a privação de sono aparece quando compromissos profissionais, familiares ou sociais fazem com que a pessoa durma menos do que precisa. Essa alteração pode dificultar a transição normal entre os estágios do sono e aumentar a ocorrência de determinados comportamentos.
Outras condições também podem favorecer o sonilóquio. Entre elas estão a apneia do sono, fatores genéticos e situações de estresse ou ansiedade.
Apneia e estresse também podem estar envolvidos
Pessoas com apneia do sono podem apresentar interrupções da respiração durante a noite e acordar tentando recuperar o ar. Muitas vezes, o próprio paciente não percebe o problema, e a busca por atendimento ocorre por causa de sonolência e cansaço durante o dia ou após reclamações de alguém que dorme ao lado sobre roncos.
O histórico familiar também pode ter influência. A genética participa da predisposição a determinados comportamentos durante o sono, incluindo diferentes tipos de parassonias.
Estresse e ansiedade são outros fatores que podem interferir na passagem do cérebro entre os estágios do sono. Técnicas de relaxamento, como a meditação, podem ajudar a reduzir essa sobrecarga, embora a presença frequente de fala durante o sono não seja, por si só, um diagnóstico de ansiedade ou outro transtorno.
Sonambulismo, paralisia e terror noturno são diferentes
A fala durante o sono faz parte do grupo conhecido como parassonias, que reúne comportamentos incomuns que podem acontecer durante o descanso. Outros exemplos são o sonambulismo, a paralisia do sono e o terror noturno.
No sonambulismo, a pessoa pode se levantar, tropeçar ou caminhar enquanto ainda está dormindo. Em muitos casos, o comportamento permanece restrito ao quarto, podendo inclusive envolver apenas uma queda da cama.
Na paralisia do sono, ocorre uma perda temporária do controle muscular durante a transição entre o sono e a vigília. Algumas pessoas relatam sensação de pânico e alucinações nesse período.
Já o terror noturno é diferente de um pesadelo. A pessoa pode demonstrar intenso medo, sentar-se repentinamente, gritar, chutar ou movimentar-se de maneira desordenada e, posteriormente, não se lembrar do episódio.
Entre esses comportamentos, falar dormindo costuma representar pouco risco. O principal efeito pode ser o constrangimento quando outra pessoa ouve o que foi dito.











