Uma nova onda de intoxicações por metanol deixou pelo menos 48 mortos e cerca de 100 pessoas em tratamento no sul da Nigéria, trazendo alerta internacional sobre os perigos do consumo de bebidas alcoólicas adulteradas. Segundo autoridades locais, 182 pessoas podem ter sido afetadas após ingerirem uma mistura alcoólica produzida artesanalmente, suspeita de conter a substância altamente tóxica.
O episódio ocorre aproximadamente um ano depois da crise envolvendo bebidas contaminadas com metanol no Brasil, especialmente em São Paulo. O país voltou a registrar casos de intoxicação associados ao consumo de bebidas adulteradas em 2026, enquanto investigações e operações contra a falsificação continuam colocando em evidência os riscos do mercado clandestino.
Os casos na Nigéria foram registrados nos municípios de Odigbo e Irele, no estado de Ondo. O comissário estadual de Saúde, Banji Ajaka, informou que pelo menos 48 pessoas morreram e que aproximadamente outras 100 estavam recebendo atendimento médico.
Um dos pacientes, Sola Adebayo, de 32 anos, relatou à TVC News que havia consumido duas doses da bebida. No dia seguinte, percebeu que não conseguia enxergar.
A polícia de Ondo informou que 15 pessoas foram presas durante a investigação. Entre os detidos está uma pessoa apontada como envolvida na produção de substâncias suspeitas de conter metanol e que passou a colaborar com as autoridades para esclarecer a origem da contaminação.
Moradores ouvidos pela Associated Press levantaram a suspeita de que uma bebida artesanal conhecida como “Monkey Tail”, de elevado teor alcoólico, tenha sido misturada com metanol. Um comerciante que vende a bebida em Odigbo afirmou, sob anonimato, que existem duas versões do produto: uma considerada original e outra que apresentaria risco à saúde.
A investigação ainda precisa determinar oficialmente como ocorreu a contaminação e qual foi a origem do metanol encontrado na bebida.
Brasil também registra novas intoxicações
O caso internacional chama atenção no Brasil porque ocorre cerca de um ano após uma crise envolvendo bebidas adulteradas com metanol. Na ocasião, o aumento repentino de pessoas intoxicadas levou o Ministério Público e a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo a investigar uma possível cadeia de falsificação.
Operações foram realizadas em distribuidoras de bebidas, com cumprimento de mandados de busca e apreensão. Análises periciais das bebidas consumidas pelas primeiras vítimas identificaram a presença de metanol.
Segundo os dados apresentados pelo Ministério da Saúde, 2025 terminou com 73 casos confirmados de intoxicação por metanol associados ao consumo de bebidas adulteradas e 25 mortes. Em 2026, até meados de agosto, havia 17 casos confirmados e outros 23 ainda sob investigação. As secretarias estaduais de Saúde também haviam confirmado sete mortes relacionadas aos episódios registrados neste ano.
Um dos casos mais recentes ocorreu em São Félix do Araguaia, no Mato Grosso. Ana Caroline, de 31 anos, passou mal depois de consumir uísque durante uma confraternização com amigos. Inicialmente, a família acreditou que os sintomas fossem consequência de uma ressaca, mas o quadro evoluiu rapidamente e a paciente chegou a apresentar dificuldades para enxergar.
Por que o metanol é tão perigoso
O metanol, também chamado de álcool metílico e representado pela fórmula CH₃OH, é um composto utilizado principalmente em processos industriais. A substância pode ser empregada como solvente, anticongelante, componente de combustíveis e na fabricação de produtos como plásticos e adesivos.
Por ter baixo custo e não apresentar características sensoriais facilmente perceptíveis, o produto pode ser utilizado na adulteração clandestina de bebidas alcoólicas. O consumidor não consegue identificar sua presença de maneira confiável apenas pelo cheiro, sabor ou aparência da bebida.
A toxicidade está relacionada à forma como o organismo processa o metanol. Diferentemente do etanol, que é o álcool presente nas bebidas alcoólicas destinadas ao consumo humano, o metanol é transformado no organismo em compostos altamente tóxicos, entre eles o formaldeído e o ácido fórmico.
Essas substâncias podem provocar uma grave alteração do equilíbrio químico do organismo, conhecida como acidose metabólica, além de atingir o sistema nervoso central e principalmente o nervo óptico. Por isso, alterações na visão estão entre os sinais mais preocupantes da intoxicação.
Sintomas podem demorar para aparecer
Um dos fatores que tornam a intoxicação especialmente perigosa é o intervalo entre o consumo da bebida e o aparecimento dos sinais. Dependendo da quantidade ingerida e da presença de etanol, os sintomas podem surgir somente horas depois, o que pode fazer com que a pessoa atribua o mal-estar a uma ressaca comum.
Entre os primeiros sintomas estão dor de cabeça, náuseas, vômitos, sonolência, tontura, falta de coordenação e confusão mental. A evolução do quadro pode levar ao aparecimento de dor abdominal intensa, alterações na visão, sensibilidade à luz, visão embaçada, pontos escuros ou percepção semelhante a um “campo nevado”.
Nos casos graves, a pessoa pode sofrer perda repentina da visão, dificuldade para respirar, hiperventilação, convulsões e coma.











