Aos 33 anos, a cirurgiã Krícis Heather Torres recebeu o diagnóstico de autismo de nível 1, que exige apoio pontual em interações sociais e mudanças de rotina. Formada em 2020, ela atuava no centro cirúrgico e passava havia anos por esgotamento físico e emocional sem compreender a origem do sofrimento.
O diagnóstico veio em maio deste ano e mudou sua trajetória profissional.
Antes do diagnóstico, ela havia feito tratamentos para depressão e ansiedade, mudado de cidade, trocado de médico e alterado medicamentos repetidas vezes. Nenhuma dessas intervenções explicava a origem do sofrimento, e o que parecia fraqueza mental era, na verdade, uma incompatibilidade sensorial com o ambiente hospitalar onde trabalhava todos os dias.
Como o diagnóstico tardio ocorre em mulheres
O autismo costuma ser associado exclusivamente à infância, o que leva a diagnósticos tardios, especialmente entre mulheres. Segundo a neuropsicóloga Joana Portolese, da Faculdade de Medicina da USP, 47% das mulheres diagnosticadas com o transtorno haviam recebido outro diagnóstico antes, em comparação com 27% dos homens.
Isso ocorre porque meninas aprendem a lidar com os sinais de outra forma: internalizam o incômodo e constroem uma camuflagem social. É um roteiro para se adequar ao comportamento esperado, que inclui observar o que dizer, quais eventos frequentar e como reagir, e essa camuflagem pode despistar profissionais de saúde.
Quando criança, Krícis não levantava suspeitas, e era uma aluna dedicada, organizada e com facilidade nos estudos, características que mascaravam os sintomas clássicos do transtorno. Ela tinha um irmão autista que interagia menos e construiu uma carreira sem interação social, enquanto ela conseguiu se adequar socialmente.
Por isso, achava que era uma pessoa típica, e como suas outras habilidades se destacavam, as dificuldades ficavam invisíveis para os pais, os professores e para ela mesma.
Os sinais que o corpo enviava dentro do centro cirúrgico
Depois da residência em cirurgia geral, a sensibilidade a estímulos externos passou a atrapalhar seu desempenho. O barulho dos equipamentos pós-operatórios, que os colegas ouviam como ruído normal, a deixava cada vez mais irritada. Depois vieram o cheiro do ambiente esterilizado e a textura de certos materiais, detalhes que a maioria ignorava.
Tudo isso produzia um cansaço que o repouso não aliviava. Era como se seu corpo estivesse constantemente em prontidão máxima, processando informações sensoriais que deveria deixar passar. Mesmo realizando o trabalho que sempre desejou, Krícis sentia estar no limite de suas forças.
A redefinição de carreira após a compreensão
Entender que o autismo estava na origem do sofrimento transformou sua percepção sobre si mesma e sua profissão. O hospital tentou fazer adaptações e permitiu que ela realizasse cirurgias com fones de ouvido para abafar o ruído.
Ainda assim, o desgaste era tão grande que ela ignorava sinais do próprio corpo, como fome, sede e vontade de ir ao banheiro, durante plantões inteiros. Krícis decidiu que não poderia continuar no centro cirúrgico sem comprometer a saúde mental e física.
Depois de anos de estudo em uma das residências mais concorridas do país, com 23 candidatos por vaga, escolheu usar seu conhecimento médico em outro contexto.
Atualmente, Krícis trabalha como criadora de conteúdo sobre temas de saúde nas redes sociais, onde consegue compartilhar sua expertise sem a sobrecarga sensorial do ambiente hospitalar. Dessa forma, ela mantém sua identidade profissional enquanto respeita as necessidades do seu corpo e mente.
O transtorno do espectro autista de nível 1, que exige suporte pontual em interações e rotinas, encontrou seu espaço de acomodação em uma atuação que ela própria desenhou.











