Para avançar na transição energética sem ocupar terras agrícolas ou áreas florestais, a Alemanha encontrou uma solução inovadora: instalar painéis solares sobre lagos artificiais. Na Baviera, um antigo lago de pedreira passou a abrigar 2.500 módulos fotovoltaicos flutuantes, formando a primeira usina solar vertical sobre a água do mundo.
O projeto foi implantado no lago da pedreira de Jais, no sul da Alemanha, e tem capacidade instalada de 1,87 megawatt (MW). A expectativa é que a estrutura gere cerca de 2 gigawatts-hora (GWh) por ano — volume suficiente para abastecer centenas de residências.
O diferencial está no formato: os painéis são posicionados verticalmente, em fileiras orientadas no eixo leste-oeste, como se fossem cercas de vidro sobre a água. Mesmo com a estrutura, apenas 4,65% da superfície do lago é utilizada, bem abaixo do limite legal de 15% permitido para esse tipo de instalação no país.

Tecnologia flutuante e sustentável
Desenvolvido pela empresa SINN Power, o sistema utiliza uma tecnologia patenteada chamada Skipp Float. Os módulos bifaciais captam luz solar dos dois lados e ficam apoiados em estruturas flutuantes com uma espécie de “quilha” submersa a cerca de 1,6 metro de profundidade, garantindo estabilidade mesmo com vento e variações no nível da água.
Entre as fileiras de painéis há corredores de aproximadamente quatro metros, permitindo a circulação de ar e a incidência de luz na superfície do lago.
Além de economizar espaço em terra firme, o modelo ajuda a reduzir a evaporação da água e aproveita áreas já impactadas pela atividade industrial, como minas e pedreiras desativadas.
Redução de custos e menor dependência da rede
Para a empresa responsável pela pedreira, o projeto vai além da sustentabilidade ambiental. Máquinas como britadores e esteiras consomem grande quantidade de energia, principalmente em dias ensolarados — justamente quando a produção solar é maior.
Desde o início da operação, a planta já reduziu em cerca de 60% o consumo de energia da rede pública. Com uma segunda fase prevista, que deve adicionar mais 1,7 MW de capacidade, a expectativa é que até 70% da eletricidade utilizada no local seja gerada ali mesmo.
A produção própria também protege a empresa das oscilações no preço da energia e reduz a conta de luz no longo prazo.
Potencial ainda pouco explorado
Segundo estudo do Instituto Fraunhofer de Sistemas de Energia Solar (ISE), a Alemanha possui mais de 6 mil lagos artificiais, somando cerca de 90 mil hectares de superfície. Apesar desse potencial, apenas cerca de 21 MW de energia solar flutuante estão atualmente em operação, com outros 62 MW em construção — número ainda distante da estimativa de potencial entre 1,8 e 2,5 gigawatts.
O projeto na Baviera é visto como modelo para futuras iniciativas e mostra como áreas industriais desativadas podem ganhar nova função na matriz energética.




