Mais de 150 anos após enfrentar o Paraguai no maior conflito armado da história da América do Sul, o Brasil dá agora um passo simbólico e estratégico de aproximação regional. O Senado Federal aprovou no início de dezembro, projetos que autorizam a doação de quatro helicópteros militares a países vizinhos — dois ao Paraguai e dois ao Uruguai — com o objetivo de reforçar a cooperação em segurança pública e defesa.
Pelo texto aprovado, o governo brasileiro ficará autorizado a transferir dois helicópteros Bell 412 Classic à Polícia Nacional do Paraguai. As aeronaves pertencem hoje ao Comando de Aviação Operacional da Polícia Federal e são utilizadas em missões de patrulhamento, transporte de tropas e apoio aéreo em operações de segurança.
Já o Uruguai deverá receber dois helicópteros Bell Jet Ranger 3 (IH-6B), atualmente sob responsabilidade da Marinha do Brasil. Os equipamentos serão incorporados à Armada Nacional uruguaia, com emprego previsto em atividades de transporte, apoio logístico e missões operacionais.
De acordo com o projeto, as aeronaves serão doadas no estado atual de conservação, cabendo aos países beneficiados todos os custos de manutenção, operação e eventuais adaptações, sem gerar despesas adicionais ao Brasil.

Debate no Congresso e defesa do governo
A proposta não passou sem resistência. Parte dos senadores questionou os motivos da doação e a cessão de equipamentos militares a outros países, o que chegou a provocar adiamentos na votação. Ainda assim, o governo defendeu a iniciativa como estratégica.
Para o senador Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, a medida fortalece a atuação conjunta contra ameaças que não respeitam fronteiras.
“A criminalidade organizada e outras ameaças à incolumidade da população ultrapassam as fronteiras geográficas e, por isso, exigem respostas coordenadas e eficazes entre os países da América do Sul”, afirmou o parlamentar.
Congressistas favoráveis ao texto também destacaram que a doação amplia a capacidade operacional das forças de segurança do Paraguai e do Uruguai sem comprometer as estruturas brasileiras, além de reforçar laços diplomáticos na região.
De inimigos históricos a parceiros estratégicos
A cooperação com o Paraguai carrega um forte simbolismo histórico. Entre 1864 e 1870, Brasil, Argentina e Uruguai formaram a Tríplice Aliança contra o país vizinho na Guerra do Paraguai, conflito que devastou a nação paraguaia.
Estima-se que até 280 mil paraguaios tenham morrido, o equivalente a mais da metade da população da época, incluindo cerca de 80% dos homens adultos. O país perdeu aproximadamente 40% de seu território, além de enfrentar colapso econômico, endividamento externo e décadas de instabilidade política.
O Brasil também sofreu perdas significativas, com cerca de 50 mil a 60 mil mortos, enquanto Argentina e Uruguai registraram, respectivamente, cerca de 18 mil e 3 mil baixas — muitas delas causadas por doenças e más condições sanitárias, e não diretamente por combates.



