O crescimento acelerado da demanda por energia, impulsionado pela inteligência artificial, pela economia digital e pelas metas de redução de emissões de carbono, fez o Brasil ligar o sinal de alerta e recolocar a energia nuclear no centro do planejamento estratégico. Mesmo sem ter aderido ao compromisso firmado por mais de 20 países na COP28, que prevê triplicar a capacidade nuclear global até 2050, o país começa a estruturar o caminho para novos investimentos no setor, com foco em segurança, regulação e estabilidade do fornecimento.
A discussão ganha peso após o evento da COP30, que foi sediada no Brasil, e em meio à ambição do governo de transformar o país em um hub global de data centers sustentáveis. Embora a matriz elétrica brasileira seja majoritariamente limpa, baseada em hidrelétricas, eólica e solar, a intermitência dessas fontes acende o debate sobre alternativas capazes de garantir energia contínua em larga escala.
Energia firme para uma demanda crescente
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers já consomem cerca de 1,5% de toda a eletricidade mundial e devem dobrar essa participação até 2030. A expansão da inteligência artificial é o principal vetor desse crescimento, exigindo fontes energéticas confiáveis e constantes.
Nesse cenário, a energia nuclear surge como opção estratégica. A IEA estima que, até o fim da década, quase 60% da eletricidade consumida por data centers virá de fontes renováveis combinadas com a energia nuclear.

Criada em 2025, a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) marca uma mudança estrutural no setor nuclear brasileiro. Antes, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) acumulava funções de fiscalização e de desenvolvimento científico, o que gerava críticas e questionamentos internacionais. Com a reformulação, a regulação passou a ser responsabilidade de uma agência independente, ligada ao Ministério de Minas e Energia.
A separação das funções atende a uma antiga reivindicação do setor, ao evitar conflitos de interesse e reforçar a credibilidade do Brasil no cenário internacional. Enquanto a ANSN responde por normas, licenciamento e fiscalização, os institutos técnico-científicos da CNEN concentram-se em pesquisa, inovação e prestação de serviços tecnológicos.
Segurança e transparência no centro da expansão
Instituições como o IPEN (em São Paulo), o IEN (no Rio de Janeiro), o CDTN (em Belo Horizonte) e o CRCN-NE (em Recife) permanecem como pilares do desenvolvimento científico nuclear. Já a ANSN atua para criar um ambiente regulatório que permita a expansão do setor com padrões elevados de segurança e transparência.
Embora o país ainda avance lentamente na conclusão de sua terceira usina nuclear — iniciada nos anos 1980 —, o reforço institucional e o novo contexto energético global indicam uma mudança de postura.




