Conhecida mundialmente pelas ondas que atraem surfistas profissionais, Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, passou a figurar em um ranking inesperado: o de cidade mais rica do Brasil em termos de Produto Interno Bruto (PIB) per capita. Abastecida por vultosos repasses de royalties do petróleo, a cidade alcançou, em 2023, um PIB per capita de R$ 722.441,52, o maior do país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O dado, no entanto, esconde uma realidade marcada por desigualdades e desafios estruturais.
A transformação recente de Saquarema está diretamente ligada à exploração de petróleo na Bacia de Santos. Os royalties, com destinação obrigatória, passaram a “abarrotar” os cofres da prefeitura e transformaram o município em um grande canteiro de obras, conforme destacou reportagem do jornal Extra.
Levantamento do IBGE mostra que o crescimento econômico local foi exponencial. Estudo elaborado pelo economista Mauro Osório e pelo mestre em desenvolvimento regional Henrique Rabelo, do Instituto de Estudos do Rio de Janeiro, aponta que o PIB per capita da cidade saltou 1.398% entre 2010 e 2023. No mesmo período, o crescimento foi de apenas 6,2% no Estado do Rio de Janeiro e 8,2% no Brasil.

Renda baixa e empregos frágeis
Apesar da riqueza formal, o dinheiro não se reflete de forma direta no bolso da maioria dos moradores. Dados do Censo 2022 revelam que o rendimento médio mensal da população é de R$ 2.310, o que representa menos de R$ 28 mil por ano — abaixo das médias estadual e nacional.
O contraste ajuda a explicar o sentimento ambíguo na cidade: orgulho pelos números históricos e inquietação com a qualidade de vida. O mesmo estudo econômico aponta que quase metade dos postos de trabalho em Saquarema está na informalidade, o que fragiliza a estrutura social e o acesso a direitos trabalhistas.

Entre os moradores, as opiniões se dividem. Há críticas ao crescimento acelerado de bairros periféricos, à precariedade do saneamento básico, à quantidade de ruas sem pavimentação e à falta de profissionais para colocar em pleno funcionamento novas unidades de saúde e educação.
Por outro lado, parte da população reconhece avanços. Cursos de qualificação financiados com recursos do petróleo ajudaram moradores a empreender, e programas sociais como Educa Saquá e Social Saquá são citados como iniciativas que ampliaram o acesso a benefícios.
Dependência dos royalties preocupa
Segundo dados da própria prefeitura, 79,37% das despesas executadas em 2024, que somaram R$ 2,49 bilhões, tiveram origem nos royalties do petróleo. Para 2025, a previsão é reduzir essa dependência para 71,71%, o que evidencia a preocupação com a sustentabilidade financeira do município no longo prazo.
Mesmo com investimentos, a pressão sobre os serviços públicos permanece. O Hospital Municipal Porphírio Nunes de Azeredo, no distrito de Bacaxá, passou por reformas e ganhou um anexo, mas segue operando acima da capacidade.
Como resposta, a prefeitura anunciou a intenção de abrir um concurso público com 1.794 vagas nas áreas de educação, saúde e segurança ainda neste semestre, na tentativa de suprir a carência de profissionais e dar conta do crescimento populacional. Atualmente, Saquarema já ultrapassa 95 mil habitantes, segundo estimativas do IBGE para 2025.




