Antes vistos apenas como um incômodo que quase sempre termina em extração cirúrgica, os dentes do siso podem ganhar um novo papel na medicina. Um estudo publicado na revista Stem Cell Research & Therapy revela que a polpa dentária desses dentes abriga células-tronco com potencial para regenerar tecidos do cérebro, do coração e dos ossos.
A descoberta foi conduzida por pesquisadores da Universidade do País Basco, na Espanha, que conseguiram transformar células da polpa dentária em células semelhantes a neurônios capazes de emitir sinais elétricos — característica essencial para a comunicação entre células cerebrais.
Cada dente do siso contém uma parte interna macia chamada polpa dentária, rica em vasos sanguíneos e células-tronco. Essas células, quando isoladas em laboratório, demonstraram capacidade de se diferenciar em diversos tipos celulares, incluindo:
- Neurônios
- Células do músculo cardíaco
- Tecido ósseo
Segundo os pesquisadores, o avanço mais relevante foi fazer com que essas células apresentassem atividade elétrica semelhante à de neurônios reais. “Esse salto é essencial, porque circuitos cerebrais danificados precisam de células capazes de transmitir sinais”, destacou a equipe.
Nos Estados Unidos, cerca de 10 milhões de dentes do siso são removidos todos os anos. A maioria é descartada como lixo hospitalar, mas cada extração representa uma oportunidade de coleta de tecido vivo — geralmente de adolescentes e jovens adultos, fase em que as células ainda têm alta capacidade de divisão e poucas alterações genéticas.

Potencial contra doenças
Estudos pré-clínicos já apontam resultados promissores. Em modelos animais de Parkinson, células derivadas da polpa dentária ajudaram a aliviar sintomas motores ao substituir neurônios produtores de dopamina.
Pesquisas relacionadas ao Alzheimer indicam que essas células podem liberar fatores de crescimento capazes de proteger sinapses e reduzir inflamações cerebrais. Uma revisão publicada em 2024 destacou ainda a capacidade dessas células de auxiliar na remoção de placas amiloides — associadas à progressão da doença.
Além disso, testes iniciais relatados pela revista Nature Medicine mostraram que implantes de células-tronco sobreviveram em pacientes com Parkinson e passaram a liberar dopamina.
Como as células viram neurônios
Para estimular a transformação em células nervosas, os cientistas utilizaram substâncias como ácido retinoico (RA) e cloreto de potássio (KCl), que favoreceram o desenvolvimento de características neuronais.
As células cultivadas sem soro fetal e organizadas em estruturas esféricas apresentaram melhor desempenho, desenvolvendo prolongamentos semelhantes a dendritos e exibindo marcadores típicos de neurônios. Mais importante: conseguiram disparar impulsos elétricos, comportamento fundamental para a função cerebral.
Empresas especializadas já oferecem serviços de armazenamento da polpa dentária em nitrogênio líquido, prática chamada por algumas de “seguro biológico”. Diferentemente de células-tronco embrionárias, a coleta da polpa não envolve dilemas éticos significativos, já que o dente seria descartado.




