O mundo entrou, nesta quarta-feira (4), em um território inédito e considerado altamente perigoso no cenário geopolítico global. Com o fim oficial do tratado New START, Estados Unidos e Rússia deixaram de ter qualquer acordo que limite a produção, o posicionamento e a quantidade de ogivas nucleares estratégicas. Especialistas avaliam que a decisão abre caminho para uma nova corrida armamentista e eleva o risco de uso de armas nucleares ao maior nível das últimas décadas.
Assinado em 2010, em Praga, pelos então presidentes Barack Obama e Dmitry Medvedev, o New START era o último grande pilar do controle de armas nucleares entre Washington e Moscou. O acordo restringia cada país a 1.550 ogivas nucleares estratégicas implantadas, uma redução de quase 30% em relação aos limites anteriores. Com o vencimento do tratado, nenhuma dessas restrições permanece em vigor.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o momento como “grave para a paz e a segurança internacionais”. Segundo ele, esta é a primeira vez, em mais de 50 anos, que o planeta vive sem qualquer limite vinculante sobre os arsenais nucleares das duas nações que concentram mais de 80% das ogivas nucleares do mundo.
“A dissolução de décadas de conquistas não poderia ocorrer em um momento pior. O risco do uso de uma arma nuclear é hoje o maior em décadas”, afirmou Guterres, lembrando inclusive declarações recentes da Rússia sobre o possível uso de armas nucleares táticas no contexto da guerra na Ucrânia.
O alerta foi reforçado por líderes políticos e religiosos. O papa Leão XIV pediu que os dois países façam “todo o possível” para evitar uma nova corrida armamentista, enquanto o ex-presidente dos EUA Barack Obama declarou que o fim do tratado “torna o mundo menos seguro”.
Tensões políticas e impasse diplomático
O acordo chegou a ser prorrogado por cinco anos em 2021, durante o início do governo de Joe Biden. No entanto, as relações entre Estados Unidos e Rússia se deterioraram rapidamente após a invasão da Ucrânia, inviabilizando qualquer avanço nas negociações para um novo tratado.
Durante o governo Donald Trump, propostas russas para extensões temporárias do acordo não avançaram. Trump, inclusive, já criticou abertamente tratados internacionais de controle nuclear e chegou a defender a retomada de testes atômicos, embora isso não tenha sido implementado.
A Rússia afirmou que não está mais vinculada a nenhuma obrigação do New START, mas disse que pretende agir de forma “responsável e prudente”, alertando que tomará medidas “decisivas” caso sua segurança nacional seja ameaçada.
Impacto global e o papel da China
Especialistas alertam que o fim do New START não afeta apenas EUA e Rússia. A ausência de limites pode enfraquecer o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que será revisado ainda este ano e é fundamental para impedir que novos países desenvolvam armas nucleares.
Os Estados Unidos defendem que qualquer novo acordo inclua a China, cujo arsenal nuclear cresce rapidamente e já conta com cerca de 550 lançadores estratégicos — número ainda inferior aos de Washington e Moscou, mas em expansão constante. França e Reino Unido, aliados dos EUA, somam cerca de 100 ogivas adicionais.



