O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reagiu com cautela ao convite feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano), para integrar o chamado Conselho da Paz de Gaza, iniciativa norte-americana voltada ao conflito no Oriente Médio. A resposta do petista, dada nesta terça-feira (20), durante agenda oficial em Rio Grande (RS), surpreendeu ao misturar diplomacia, críticas à política digital e um alerta sobre decisões tomadas sob pressão externa.
Horas depois de Trump confirmar publicamente o convite, Lula evitou sinalizar adesão imediata e afirmou que não se deixa influenciar por anúncios políticos nem por movimentos internacionais precipitados.
Durante o discurso, Lula citou a campanha eleitoral de Trump como exemplo do que considera um uso abusivo das redes sociais e da comunicação digital para manipular a opinião pública.
“Na campanha do presidente Trump, eles mandaram 2 bilhões de mensagens contra a adversária dele [Hillary Clinton]. É uma febre de celular que deixa as pessoas viciadas e manipuláveis”, afirmou Lula.
Segundo o presidente, o mundo vive um momento delicado, marcado por excesso de informações, pressões instantâneas e decisões políticas tomadas sem reflexão adequada. Para ele, governar exige “cabeça em ordem” e equilíbrio diante desse cenário.

Convite internacional sob análise
O convite ao Brasil faz parte de uma articulação de Trump com líderes globais para compor o Conselho da Paz de Gaza. De acordo com informações do Itamaraty, Lula acompanha de perto a reação de outros chefes de Estado que receberam a mesma proposta.
Até a tarde desta terça-feira (20), poucos líderes haviam se manifestado. Entre os que aceitaram estão o presidente da Argentina, Javier Milei, e o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, ambos alinhados à direita internacional. Já o presidente da França, Emmanuel Macron, aliado de Lula, recusou publicamente o convite.
“Sem precipitações”, diz governo
A estratégia do Planalto é avaliar o convite com cuidado, levando em conta impactos diplomáticos e políticos. O tema foi discutido em reunião na segunda-feira (19) entre Lula, o chanceler Mauro Vieira e assessores da área internacional.
“Estamos em um ritmo normal de processo decisório sobre um assunto complexo e de grande repercussão. Muito poucos países reagiram ao convite até o momento. É assim mesmo que funciona”, afirmou, sob reserva, um embaixador que acompanha o tema.
Outro integrante do governo reforçou que não haverá decisão apressada.
“Há um caminhão de fatores. Agora é o momento de entender cada um deles, sem precipitações. E sem singularizar”, disse.
Alerta sobre desinformação
Além do aspecto diplomático, Lula aproveitou o episódio para criticar o que chamou de avanço do individualismo digital e da desinformação no Brasil. Segundo ele, hábitos como o uso excessivo de aplicativos, grupos de mensagens e a exposição constante da vida pessoal criaram um ambiente propício à propagação de mentiras.
O presidente afirmou que setores da direita souberam explorar esse cenário e construíram uma “indústria poderosa” de desinformação, capaz de influenciar comportamentos e decisões políticas.




