Um dos nomes mais influentes da inteligência norte-americana durante a Guerra Fria, o general Vernon A. Walters afirmou que, sem apoio dos Estados Unidos ao regime militar, o Brasil poderia se transformar “em uma nova China”. A declaração sintetiza a visão estratégica que guiou parte da política externa dos EUA em relação ao país nas décadas de 1960 e 1970.
Walters, que chegou ao cargo de diretor da CIA e morreu em 2002, teve atuação direta no Brasil antes e durante o golpe militar de 1964. Em memorando enviado no último dia de 1968 ao então secretário de Estado Henry Kissinger, ele sugeriu que Washington deveria sustentar o regime instaurado quatro anos antes. Caso contrário, advertiu, o Brasil correria o risco de se alinhar ao bloco comunista.
Nascido em 1917, em Nova York, Walters ingressou no Exército dos Estados Unidos em 1941. Fluente em vários idiomas, foi designado para o serviço de inteligência e atuou como intérprete nas negociações entre oficiais brasileiros e norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse período, estreitou laços com militares brasileiros, entre eles Humberto Castelo Branco, que viria a ser o primeiro presidente da ditadura.
Após a guerra, serviu como adido militar assistente no Brasil até 1948. Voltou ao país em 1962, indicado pelo embaixador Lincoln Gordon, em meio à crescente tensão política envolvendo o presidente João Goulart. Documentos históricos apontam que Walters colaborou na articulação do movimento que culminou na deposição de Jango, considerado por Washington simpático à esquerda.

A atuação de Walters no Brasil se insere em um período marcado por intervenções indiretas, articulações diplomáticas e apoio velado a movimentos militares na América Latina. Ao longo das décadas, a abertura de documentos oficiais reforçou evidências de que autoridades norte-americanas conspiraram para manter o Brasil alinhado a seus interesses estratégicos.
Há relatos de que ele teria auxiliado na preparação da chamada Operação Brother Sam, plano que previa o envio de uma força-tarefa naval norte-americana, liderada pelo porta-aviões USS Forrestal, para apoiar os militares brasileiros caso houvesse resistência ao golpe. Com a consolidação da queda de Goulart em 2 de abril de 1964, a operação foi desativada.
“Não seria outra Cuba, seria outra China”
Décadas depois, em entrevista concedida em 1998, Walters reafirmou sua convicção sobre o papel estratégico do Brasil. “Eu gostaria de ser lembrado por ter feito o que pude, como soldado, para manter a paz, porque se o Brasil tivesse sido perdido, não seria uma outra Cuba: seria uma outra China”, declarou.
A comparação com a China refletia o temor, comum na política externa norte-americana da época, de que o maior país da América Latina pudesse se tornar uma potência comunista de grandes proporções, alterando o equilíbrio geopolítico no hemisfério ocidental.
Walters também esteve presente em outros momentos sensíveis da Guerra Fria, como no Irã em 1953 e no Chile antes da queda de Salvador Allende, embora não existam provas documentais de seu envolvimento direto nesses episódios.
Conspirações e memória histórica
Os acontecimentos que cercaram o golpe de 1964 alimentaram, ao longo das décadas, uma cultura de desconfiança e teorias conspiratórias no Brasil. Registros históricos mostram que autoridades norte-americanas discutiram, ainda no governo John F. Kennedy, a possibilidade de apoiar militares brasileiros contra o que consideravam uma “ameaça da esquerda”.
Pesquisas baseadas em documentos posteriormente confidenciais revelaram a extensão da articulação diplomática e militar entre Brasília e Washington naquele período. Para analistas, o caso exemplifica como, em contextos de Guerra Fria, a retórica anticomunista foi usada para justificar intervenções e redefinir rumos políticos internos.




