À primeira vista, Mercúrio parece o planeta menos interessante do Sistema Solar: árido, craterado, sem atmosfera significativa e sem qualquer chance de abrigar vida. No entanto, por trás dessa aparência simples, o mundo mais próximo do Sol guarda alguns dos maiores enigmas da ciência planetária — a começar por uma pergunta básica que ainda não tem resposta definitiva: como Mercúrio conseguiu se formar e existir?
Mercúrio é minúsculo em termos planetários. Tem cerca de 20 vezes menos massa que a Terra e um tamanho pouco maior que o da Austrália. Ainda assim, é o segundo planeta mais denso do Sistema Solar, atrás apenas da Terra. Essa densidade extrema é explicada por um núcleo metálico gigantesco, que ocupa a maior parte de sua estrutura interna.
Para os cientistas, isso representa um problema. De acordo com os modelos atuais de formação planetária, um corpo tão pequeno e tão próximo do Sol não deveria ter retido tanto material pesado. Em outras palavras, Mercúrio simplesmente não deveria existir da forma como existe.

Dias intermináveis, anos curtíssimos e pores do sol ao contrário
Outro aspecto que torna Mercúrio único é sua dinâmica orbital. O planeta completa uma volta ao redor do Sol em apenas 88 dias terrestres, o ano mais curto do Sistema Solar. Já sua rotação é extremamente lenta: um único dia em Mercúrio dura cerca de 58,6 dias terrestres.
Essa combinação cria uma ressonância orbital rara, conhecida como ressonância 3:2: a cada duas voltas em torno do Sol, Mercúrio gira três vezes em torno do próprio eixo. O resultado é um fenômeno quase surreal. Em determinados momentos, especialmente quando o planeta atinge o periélio (o ponto mais próximo do Sol), o astro parece parar no céu e andar para trás, como se alguém tivesse apertado o botão de retroceder.
Temperaturas extremas e regiões eternamente escuras
A proximidade com o Sol faz com que a luz que atinge Mercúrio seja cerca de sete vezes mais intensa do que na Terra. Como o planeta gira lentamente, essa energia solar tem meses para aquecer a superfície, elevando as temperaturas a mais de 420 °C, suficientes para derreter chumbo.
Por outro lado, as noites duram cerca de três meses terrestres. Nesse período, a temperatura despenca para -170 °C, fria o bastante para congelar gases como metano e dióxido de carbono.
Mercúrio também não possui estações do ano. Seu eixo de rotação é quase perpendicular à órbita, o que faz com que crateras profundas nos polos jamais recebam luz solar. Essas regiões permanentemente sombreadas são alvo de grande interesse científico: há indícios de que possam abrigar gelo de água ou enxofre, algo surpreendente para um planeta tão quente.
Um campo magnético inesperado
Outro mistério envolve o campo magnético de Mercúrio. Apesar de ser pequeno e antigo, o planeta mantém um campo magnético próprio — cerca de 1% da intensidade do terrestre. Isso o torna único entre os planetas rochosos: Vênus, Marte e a Lua não possuem campos magnéticos ativos semelhantes.
Por que apenas a Terra e Mercúrio conseguiram manter esse tipo de estrutura interna ainda é uma questão em aberto para a ciência.




