O uso prolongado de fones de ouvido Bluetooth voltou ao centro do debate após um estudo sugerir uma possível associação entre o tempo diário de uso desses dispositivos e o surgimento de nódulos na tireoide. A pesquisa ganhou força nas redes sociais, mas médicos e os próprios autores do trabalho reforçam: não há comprovação de que os fones causem nódulos ou doenças.
Publicado em 2024 na revista científica Scientific Reports, o estudo analisou dados de cerca de 600 questionários, utilizando modelos de inteligência artificial para identificar possíveis fatores associados ao aparecimento de nódulos na tireoide.
Após ajustes estatísticos para reduzir vieses, os pesquisadores encontraram dois fatores mais relevantes: a idade dos participantes e o tempo diário de uso de fones de ouvido Bluetooth. A partir disso, o trabalho apontou uma associação estatística — e não uma relação de causa e efeito — entre o uso prolongado dos dispositivos e a presença de nódulos.
Os próprios autores ressaltam que os resultados precisam ser confirmados por estudos mais amplos e controlados.
Tema viralizou nas redes
A pesquisa passou a circular amplamente nas redes sociais, impulsionada por influenciadores da área da saúde. O médico americano Paul Saladino, por exemplo, afirmou em publicações e podcasts que fones Bluetooth poderiam representar um risco à tireoide por emitirem radiofrequência.
Segundo ele, a proximidade dos dispositivos com uma glândula sensível tornaria o uso preocupante. Saladino chegou a comparar os fones a “um pequeno micro-ondas na cabeça”, argumento que gerou reações e questionamentos da comunidade científica.
Radiação ionizante x não ionizante
Especialistas ouvidos por veículos internacionais e brasileiros contestam essa interpretação. A função da tireoide pode ser influenciada por diversos fatores ambientais e alimentares, e não há evidências suficientes de que dispositivos Bluetooth causem nódulos, sejam eles benignos ou malignos.
Já a otorrinolaringologista Shivani Tiwari destaca que a tireoide é sensível à radiação ionizante — como raios X, tomografias ou exposição nuclear —, mas não à radiação não ionizante, que é a emitida por tecnologias Bluetooth. “Esse tipo de radiação tem energia muito baixa, não danifica o DNA nem altera a produção hormonal”, afirma.




