A China está colocando em campo um “exército” que não veste uniforme nem carrega armas — mas já provoca apreensão em governos, indústrias e mercados globais. Trata-se de uma frota gigantesca de carros elétricos e híbridos, produzidos em escala sem precedentes em território chinês, que vem alterando profundamente o consumo de energia, enfraquecendo a demanda por petróleo e redesenhando a geopolítica do setor automotivo e energético.
O avanço acelerado da eletrificação no transporte chinês já é apontado por especialistas como um divisor de águas. Dados recentes da Agência Internacional de Energia (IEA) indicam que o crescimento da demanda chinesa por combustíveis fósseis estagnou e começou a cair, algo considerado inédito até poucos anos atrás.
Historicamente, o crescimento econômico da China esteve diretamente ligado ao aumento do consumo de petróleo: mais carros a combustão, mais voos, mais obras de infraestrutura. Esse padrão, porém, começou a se romper.
Em 2024, o consumo total de petróleo bruto da China caiu 1,2%, enquanto o uso de combustíveis como gasolina, diesel e querosene de aviação ficou 2,5% abaixo dos níveis de 2021, segundo a IEA. O principal motivo é a explosão das vendas de veículos eletrificados, impulsionadas por subsídios, política industrial agressiva e preços extremamente competitivos.
Esse “exército de carros” não apenas substitui veículos a combustão dentro da China, como começa a invadir mercados internacionais, gerando tensão em países que veem suas montadoras ameaçadas pela concorrência chinesa.
Petróleo perde espaço na maior economia emergente
A mudança estrutural preocupa o mercado global de energia. A China é responsável por cerca de 73% de dependência de petróleo importado, mas mesmo assim reduziu suas importações em 2024, segundo a Agência de Energia dos EUA (EIA).
A IEA projeta que o uso de combustíveis fósseis para transporte continuará caindo nos próximos anos. A gigante estatal Sinopec já declarou que o consumo de diesel e gasolina atingiu o pico histórico no país. A orientação do governo agora é clara: reduzir o refino de combustíveis e focar na indústria petroquímica, como plásticos e fibras.
Analistas avaliam que a China pode atingir o pico total de demanda por petróleo já em 2025, enquanto o consumo de combustíveis fósseis em geral deve começar a cair antes de 2030.
Efeito dominó chinês no mundo
O impacto vai além das fronteiras chinesas. Países exportadores de petróleo e gás natural liquefeito (GNL) observam com preocupação. Segundo a BloombergNEF, as importações chinesas de GNL devem cair em 2025 pela primeira vez desde 2022.
Essa retração altera o equilíbrio do mercado global, reduz a previsibilidade de demanda e força exportadores a buscar novos compradores — principalmente no Sudeste Asiático. Ao mesmo tempo, a estratégia chinesa inspira outros países emergentes a acelerar investimentos em energia solar, eólica e eletrificação do transporte.




