Referência em prosperidade no passado e hoje associada ao um dos maiores colapsos econômicos, a Venezuela era um dos países mais ricos do continente. Impulsionado pelas maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, o país chegou a ser chamado de “Arábia Saudita da América Latina” — ou até de “Dubai das Américas” — em referência à riqueza gerada pelo petróleo e ao alto padrão de vida exibido principalmente nas décadas de 1970 e 1980.
Naquele período, a nação vizinha do Brasil figurava entre as mais ricas do continente e chegou a integrar a lista dos 20 países mais ricos do mundo. A realidade atual, no entanto, é marcada por retração econômica profunda, pobreza generalizada e um dos maiores êxodos da história moderna das Américas.
A ascensão venezuelana começou ainda na primeira metade do século 20, quando o país despontou como um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Após a queda da ditadura de Marcos Pérez Jiménez, em 1958, a Venezuela viveu três décadas de forte crescimento econômico.
Entre 1959 e 1983, o crescimento médio anual foi de 4,3%, com inflação controlada e desemprego em torno de 10%. Nos anos 1970, os venezuelanos tinham o maior poder de compra da América Latina, quase três vezes superior ao dos brasileiros, segundo dados da OCDE. Caracas exibia infraestrutura moderna, hotéis de luxo e rodovias amplas, enquanto a moeda local, o bolívar, era forte o suficiente para tornar comuns as viagens de compras a Miami.
Há cerca de 25 anos, o PIB venezuelano alcançava US$ 122,9 bilhões, superando economias como a da Colômbia e registrando desempenho superior ao do Brasil no mesmo período. Até recentemente, grande parte da população urbana tinha acesso regular a água potável, energia elétrica e saneamento.
Colapso econômico e hiperinflação
O cenário começou a mudar nas últimas décadas e se agravou sob os governos de Hugo Chávez e, posteriormente, Nicolás Maduro. Especialistas apontam uma combinação de políticas econômicas intervencionistas, controle cambial e de preços, gastos públicos elevados, enfraquecimento da iniciativa privada e má gestão da estatal petrolífera PDVSA como fatores centrais da deterioração.
A forte dependência do petróleo tornou o país vulnerável à queda dos preços internacionais. Depois de anos com o barril acima de US$ 100, a cotação despencou para cerca de US$ 21 em 2016. Ao mesmo tempo, a produção interna caiu, reduzindo drasticamente a principal fonte de receita externa.

Entre 2014 e 2021, o PIB venezuelano encolheu cerca de 70%. Em 2020, a economia recuou aproximadamente 30%. A hiperinflação atingiu níveis extremos: chegou a 300 mil por cento em 2019, enquanto o bolívar perdeu praticamente todo o valor frente ao dólar no mercado paralelo.
Segundo a Associated Press, trata-se do maior colapso econômico fora de um cenário de guerra em pelo menos 45 anos.
Crise humanitária e êxodo histórico
As consequências sociais são profundas. Dados indicam que mais de 91% da população vive na pobreza, sendo 67% em extrema pobreza. Relatórios da ONU apontam que 7,6 milhões de pessoas necessitam de ajuda humanitária. Um levantamento do Unicef mostra que um terço da população deixa de fazer ao menos uma refeição por dia.
A crise provocou ainda um êxodo massivo. De acordo com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), quase 8 milhões de venezuelanos deixaram o país — cerca de um quarto da população. Atualmente, 70% das pessoas que cruzam o perigoso Estreito de Darién rumo à América do Norte são venezuelanas.
Embora ainda mantenha laços comerciais com países como Brasil e Colômbia, a participação da Venezuela no comércio regional é limitada e representa fatias pequenas das exportações e importações. Enquanto Estados Unidos, China e Espanha concentram compras de petróleo e derivados, países latino-americanos adquirem principalmente fertilizantes à base de nitrogênio e pescado.




