A Grande Pirâmide de Gizé, um dos monumentos mais estudados e emblemáticos da humanidade, voltou ao centro de uma controvérsia científica. Um novo estudo divulgado recentemente sugere que a estrutura pode ser muito mais antiga do que se acreditava, levantando a hipótese de que sua origem antecederia em dezenas de milhares de anos a história oficial do Egito Antigo. A tese, no entanto, tem sido recebida com forte ceticismo por arqueólogos e pesquisadores.
A pesquisa foi conduzida por Alberto Donini, engenheiro da Universidade de Bolonha, e publicada na plataforma ResearchGate, sem revisão por pares. O autor analisou padrões de erosão nas pedras da pirâmide, comparando blocos que ficaram protegidos pelo antigo revestimento de calcário com aqueles expostos ao ambiente por mais tempo.
Com base em um modelo estatístico, Donini concluiu que haveria 68% de probabilidade de a pirâmide ter sido construída entre 9.000 a.C. e 37.000 a.C., com uma média estimada em torno de 23.000 a.C.. Se correta, a conclusão implicaria a existência de uma civilização altamente avançada no Egito muito antes do surgimento conhecido das sociedades organizadas.
Segundo o pesquisador, “pode-se concluir que por volta de 20 mil anos antes de Cristo existia no Egito uma civilização capaz de construir ao menos a pirâmide de Quéops”.

Erosão não é prova confiável, dizem especialistas
A hipótese ganhou repercussão nas redes sociais, mas especialistas alertam que o estudo apresenta fragilidades metodológicas importantes. De acordo com análises publicadas por veículos científicos como o IFLScience, o uso da erosão como marcador temporal é considerado altamente impreciso.
O clima do Egito variou drasticamente ao longo dos milênios, alternando períodos mais úmidos com longas fases de aridez extrema. Além disso, fatores como acúmulo de areia, ação do vento, turismo, restaurações e intervenções humanas tornam impossível assumir uma taxa constante de desgaste ao longo de dezenas de milhares de anos.
“Partir do princípio de que a erosão ocorreu de forma linear por 20 mil anos é um salto enorme”, destacam pesquisadores.
Evidências arqueológicas contradizem a tese
Outro ponto crítico é que a nova proposta entra em choque direto com décadas de evidências arqueológicas consolidadas. Escavações em Gizé e arredores revelaram cerâmicas, inscrições, registros administrativos e restos orgânicos que se encaixam perfeitamente no período do Antigo Império Egípcio, por volta de 2.600 a.C.
Além disso, técnicas como a datação por carbono-14, aplicadas a materiais encontrados nos canteiros de obras das pirâmides, reforçam a cronologia tradicional aceita pela comunidade científica internacional.
Para os arqueólogos, a Grande Pirâmide continua sendo extraordinária por sua engenharia e preservação, mas não há indícios sólidos de que ela pertença a uma civilização perdida pré-histórica.




