Caminhar pela praia e levar conchas como lembrança é um hábito antigo e aparentemente inofensivo. No entanto, especialistas alertam que a retirada dessas estruturas do ambiente natural pode causar impactos sérios ao ecossistema marinho, prejudicando animais, alterando o equilíbrio químico do mar e, em alguns casos, resultando em penalidades previstas em lei.
As conchas não estão ali por acaso. Elas são estruturas produzidas por moluscos e compostas, principalmente, por carbonato de cálcio. Com o tempo, ao se quebrarem e se decompor, devolvem esse material ao ambiente, ajudando a formar a própria areia e a manter o equilíbrio químico do mar, inclusive o pH da água.
Além disso, as conchas cumprem um papel essencial como abrigo e proteção. Caranguejos-eremitas, por exemplo, não produzem conchas e dependem totalmente das que encontram vazias para sobreviver. Outros animais utilizam fragmentos como refúgio, camuflagem ou base de fixação. Algas se prendem a essas estruturas, enquanto ovos e filhotes encontram nelas um local seguro para se desenvolver.
O que parece apenas um objeto decorativo, na verdade, é parte de um sistema complexo. Quando retiradas em grande quantidade, é criada uma ausência que cobra seu preço.

Impacto ambiental vai além do que se vê
Embora muitas pessoas recolham poucas conchas, o problema está na escala da prática, especialmente em regiões turísticas. Milhares de visitantes fazendo o mesmo gesto ao longo do tempo resultam em um empobrecimento do ambiente costeiro.
Segundo pesquisadores, além de funcionarem como abrigo, as conchas atuam como verdadeiras “âncoras” naturais, ajudando a estabilizar sedimentos e servindo como suporte para organismos marinhos. Em alguns casos, elas chegam a desempenhar o papel da própria areia, contribuindo para a formação e manutenção da praia.
No Brasil, órgãos ambientais como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) recomendam explicitamente que visitantes não retirem conchas das praias. A orientação oficial é: levar do ambiente natural “apenas memórias e fotografias”.
O ICMBio também desaconselha práticas como coleta de corais, turismo desordenado, pesca predatória e descarte de resíduos tóxicos em áreas costeiras.
De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, a compra, venda e comercialização de restos de conchas, corais e estrelas-do-mar configuram crime ambiental, com penas que podem incluir multa e até três anos de detenção. A Lei de Crimes Ambientais também pune quem transporta, comercializa ou industrializa espécies oriundas de coleta proibida.
Existe punição para quem só recolhe conchas vazias?
Alguns especialistas apontam que a legislação não é totalmente explícita quanto ao turista que recolhe conchas vazias, sem animais acoplados. Nessa interpretação, o ato isolado de catar uma concha poderia não gerar consequências criminais diretas.
Ainda assim, ambientalistas reforçam que, mesmo quando não há punição imediata, a prática contribui para a degradação do ecossistema. Por isso, a recomendação é evitar a retirada e ajudar na preservação das praias.




