A possível aprovação do fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas sem diminuição de salários podem provocar alta nos preços ao consumidor a partir de 2026, especialmente no comércio e no setor de serviços. Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que a adequação à jornada menor pode elevar em até 21% a folha salarial do comércio, com impacto estimado de R$ 122,4 bilhões por ano. No setor de serviços, o custo adicional pode alcançar R$ 235 bilhões anuais.
Diante da dificuldade de absorver esse aumento de despesas, o repasse ao consumidor pode chegar a até 13%, segundo projeções do setor. Segmentos intensivos em mão de obra, como serviços para edifícios, vigilância e agenciamento de trabalhadores, estão entre os mais sensíveis à mudança.
A mudança está prevista na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2015, já aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. O texto amplia de um para dois dias o descanso semanal — preferencialmente aos sábados e domingos — e mantém o limite diário de oito horas de trabalho, permitindo reorganização da carga horária por meio de acordos coletivos, desde que respeitado o novo teto de 36 horas semanais.

A proposta estabelece que não poderá haver redução salarial para compensar a diminuição da jornada. A implementação será gradual: no ano de publicação da emenda, não haverá mudanças. No ano seguinte, começará a ampliação do descanso semanal e a redução progressiva da jornada. O novo modelo só entrará plenamente em vigor após seis anos.
Dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2023 mostram que 31,7 milhões de trabalhadores — o equivalente a 74% dos celetistas com jornada informada — cumprem atualmente 44 horas semanais. Em 31 dos 87 setores econômicos analisados, mais de 90% dos empregados trabalham acima de 40 horas por semana, o que amplia o alcance da medida.
Divergência entre mercado e pesquisadores
Apesar das projeções de aumento de custos, estudos acadêmicos contestam a visão de impacto negativo generalizado. Pesquisa coordenada pela economista Marilane Teixeira, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp, indica que a redução da jornada para 36 horas pode gerar até 4,5 milhões de novos empregos e elevar a produtividade do país em cerca de 4%.
O levantamento integra o chamado Dossiê 6×1, elaborado por 63 autores e composto por 37 artigos que analisam os efeitos econômicos e sociais da proposta. A conclusão central do documento sustenta que o Brasil tem condições estruturais de trabalhar menos sem comprometer o crescimento econômico.
Em linha semelhante, nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) afirma que os custos de uma eventual redução para 40 horas semanais seriam comparáveis aos impactos observados em reajustes históricos do salário mínimo. Segundo o estudo, o impacto direto nos grandes setores, como indústria e comércio — que concentram mais de 13 milhões de trabalhadores — seria inferior a 1% do custo operacional.
A análise, baseada nos microdados da RAIS de 2023, considera que a redução da jornada, mantida a remuneração nominal, eleva o custo da hora trabalhada na mesma proporção do aumento do salário-hora. Ainda assim, os pesquisadores apontam que a maioria dos setores produtivos teria capacidade de absorver o aumento, embora alguns segmentos específicos demandem atenção e possíveis medidas de mitigação.




