Para Anna Christina Rocha, da Tudo Novo de Novo, a venda de produtos usados era um tabu, mas a crise econômica e a conscientização em relação à economia compartilhada alteraram esse cenário - CRÉDITO:ALISSON J. SILVA

Em tempos de economia compartilhada, negócios que apostam na reutilização de produtos ganham evidência. É o caso dos brechós de roupas e itens para bebês, que se multiplicaram pelas cidades e também na internet, seja em e-commerces, Instagram ou WhatsApp. Na capital mineira não é diferente: há opções para todos os gostos e, normalmente, eles têm uma mãe empreendedora por trás.

Fundado em 2010, o brechó Tudo Novo de Novo é um dos mais antigos da cidade. A loja tem 500 metros quadrados e fica no bairro Santo Antônio, na região Centro-Sul da Capital. A proprietária é Anna Christina Leite Rocha, que deixou a carreira no mundo corporativo para se dedicar ao negócio.

“Fui mãe aos 38 anos e esse era um tema que não fazia parte do meu mundo. Acabei comprando mais roupa que precisava para minha filha e, por isso, comecei a vender no Orkut, que era a rede social da época. Comecei de forma bem caseira, mas foi crescendo, outras mães foram levando peças até que precisei abrir uma loja”, lembra.

Hoje, a Tudo Novo de Novo já está em sua segunda sede e tem cerca de 40 mil peças, entre roupas, sapatos, brinquedos, cadeirinha para automóvel, bebê conforto e diversos outros itens para crianças de zero a 16 anos.

A empresária afirma que, nos últimos nove anos, o comportamento do consumidor mudou muito. Segundo ela, a venda de produtos usados era um tabu, mas a crise econômica e a conscientização em relação à economia compartilhada alteraram esse cenário. “As pessoas tinham a ideia errada de brechó. Por isso fiz questão de montar uma loja no estilo butique, com produtos organizados e roupinhas cheirosas. Hoje, ‘todo mundo’ compra”, diz.

O brechó trabalha com peças consignadas: cerca de 2.500 mães que deixam produtos na loja e depois buscam o valor referente à venda deles, que pode ser em dinheiro ou em produto.

Tenho todas as peças do acervo, cerca de 3 mil, publicadas no site e no Instagram do Desapego do Luxo Kids, afirma Fernanda Rossi – Crédito: Divulgação

Luxo on-line O mundo dos brechós de itens infantis também está por todos os cantos na internet. Entre eles está o Desapego do Luxo Kids, com todas as peças do acervo, cerca de 3 mil,  publicadas no Instagram e no site da empresa, especializada em roupas, sapatos e acessórios de grife de luxo e alto-luxo, tais como: Burberry, Gucci, Fendi, Chloé, Vilebrequin, Christian Dior, Moncler, Ralph Lauren, Tommy, Janie and Jack, Paola, GAP, Zara e Carters. Também são feitas vendas pelo WhatsApp.

A proprietária, Fernanda Rossi, garante: “Sou o maior e-commerce do País de roupas infantis de luxo e alto-luxo seminovas.” O modelo on-line permite, ainda, que ela empreenda de onde estiver. “Tenho um escritório onde guardo o estoque. Lá posso atender com horário marcado, além de ser um ponto de retirada e entrega. Mas, na maior parte do tempo, estou on-line: converso com as clientes pelo WhatsApp 24 horas por dia”, afirma.

A abertura do brechó foi um tanto por acaso, como ela mesma explica. Começou porque ela passou a vender roupas da sua primeira filha no Mercado Livre, mas o sucesso foi tão grande que ela enxergou potencial para abrir um negócio. Hoje, a Desapego do Luxo Kids vende cerca de R$ 50 mil a R$ 60 mil por mês em peças, que podem custar de R$ 19 a R$ 2 mil.

Ana Flávia Jacques, do Babycho, decidiu deixar a carreira de jornalista para empreender e ficar mais próxima da filha – Crédito: Divulgação

Venda direta – Já no Babycho, localizado no bairro São Pedro, também na região Centro-Sul de Belo Horizonte, o modelo é de venda direta ou troca. A proprietária, Ana Flávia Jacques, explica que a logística do consignado era muito trabalhosa e, por isso, optou por comprar as peças das mães. “Elas podem optar por vender os itens e receber em dinheiro na hora ou ficar com um crédito na loja para a troca”, explica.

O brechó foi aberto em 2016, depois que Ana Flávia Jacques decidiu deixar a carreira de jornalista para empreender e ficar mais próxima da filha. A loja fica em uma área privilegiada da cidade, em um quarteirão com diversas outras lojas de itens para criança e um salão de beleza especializado nos pequenos. “Justamente por estar nesse ‘calçadão da criança’ acabo vendendo muito para quem passa na porta”, diz.

O Babycho vende cerca de 500 itens por mês. São mais de 5 mil produtos em estoque, entre roupas, sapatos, acessórios, brinquedos, utensílios e livros. O preço varia de R$ 5 a R$ 500.

Compra consciente amplia vendas de usados para bebês

São Paulo – A possibilidade de economizar e o desejo de consumir de forma mais consciente têm alimentado o mercado de roupas usadas. Quando o assunto são itens para bebês, colabora outro fator: eles crescem rápido e costumam perder tudo a cada seis meses.

Não por acaso, surgem cada vez mais brechós especializados nesse segmento.

Fundado pelos irmãos Giovanna Domiciano e Flavio Thenorio, o Arena Baby nasceu em uma sala de 30 metros quadrados em Santo André. Hoje, são 10 lojas no estado de São Paulo.

Por mês, cada unidade fatura em média R$ 40 mil com a venda de até 4.000 peças, entre roupas, acessórios, brinquedos e equipamentos.

Etiquetas de cores diferentes identificam cada item como “quase novo”, “nunca usado” ou “novo de fábrica” – os usados representam 85%.

Uma das estratégias para engordar os estoques é estimular os clientes a trocarem roupas que não servem mais por créditos em loja. “Durante a semana, entram até 200 peças novas em cada unidade, mas o volume dobra nos fins de semana e feriados”, diz Giovanna Domiciano, que pretende chegar a 147 lojas até 2025.

Segmento – Brechós, em geral, não trabalham com altas margens de lucro: giram em torno de 10% a 20%. O segredo para que o negócio seja bem-sucedido é ter ganho na escala, ensina a analista de negócios do Sebrae Elisângela Doroteu Almeida.

Esse é o plano de negócios da economista gaúcha Michele Zwarg, criadora do brechó virtual Encolheu. Ela criou um perfil no Instagram para vender roupas do próprio filho, em 2018, e se surpreendeu com a procura. Hoje com 11.200 seguidores, a empresária diz vender em média 430 peças por mês.

Boa parte dos produtos exibe etiquetas de grifes de grande aceitação, a exemplo de Gap e Paola da Vinci. Os preços vão de R$ 15 a R$ 100.

A empreendedora despacha roupas e sapatinhos pelos Correios, depois de higienizá-los e perfumá-los.

“Meu projeto é ganhar escala lançando um comércio eletrônico em breve”, diz.

Mesmo que o investimento para lançar uma loja on-line seja menor do que a montagem de um ponto fixo, Elisângela Almeida, do Sebrae, lembra que é crucial contabilizar também o custo de manutenção do site e a eventual contratação de ajudantes.

O publicitário carioca Alexandre Fischer investiu R$ 200 mil para lançar o Ficou Pequeno em 2013. Hoje, reúne 150 mil pessoas que vendem e compram roupas, acessórios e equipamentos.

Cada usuário monta a própria loja, sem custo, coloca seus produtos à venda e se responsabiliza pelo envio. O site cobra 20% de comissão do vendedor, enquanto o comprador arca com o frete.

Fischer não entrega o volume de vendas, mas dá o tamanho do estoque: 80 mil peças, à venda por preços até 80% mais baixos que os de peças novas. (Folhapress)