Crédito: Agência Brasil

O ex-governador Eduardo Azeredo, que se encontra detido, cumprindo condenação por alegados desvios de recursos públicos nas eleições de 1988, anunciou esta semana sua desfiliação ao PSDB, comunicada em carta enviada à direção do partido no início do mês.

Azeredo, um político singular, um homem de bem, forjado para a política na escola de seu pai Renato Azeredo, sempre alegou inocência, sustentando não fazer o menor sentido sua ligação com os fatos alegados – o patrocínio de uma competição esportiva -, acusação pela qual ele está pagando dura pena. E, na condição de virtual bode expiatório, a figura ideal para ser levado às barras para comprovar a isenção do Judiciário, um “tucano” preso, condenado, espécie de troféu, mesmo que acusado de delitos em que seja bastante difícil aceitar a atuação direta e determinante do governador do Estado em pessoa.

Faltaram, claramente, os tais elementos de convicção, sobretudo para quem conhece mais de perto o acusado e testemunha os valores que, na vida pública, sempre soube cultivar. Bem mais fácil é perceber a conveniência do movimento, numa fase particularmente conturbada da vida nacional, sobretudo porque também é possível perceber, e com igual clareza, ter sido outro o tratamento a personagens, digamos, mais articulados do mundo político.

Uma história triste, uma injustiça que já está consumada e que não há como reparar, mesmo que a condenação venha a ser revista, o que se espera e deseja. E é nesse contexto que se deve entender a decisão do ex-governador, atrasada em pelo menos 30 anos, quando o então governador de Minas, exatamente por ser quem é, não representando ameaça, foi traído porque o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, lutava pelo segundo mandato, também pretendido por Itamar Franco, e para cumprir seu intento ajudou a fazer dele governador de Minas, mesmo atropelando, traindo, o candidato natural à reeleição.

Eduardo, fiel a seus valores, não reclamou, não cobrou e não mudou de atitude, mantendo os valores em que acreditava, jamais denunciando a manobra. Só agora, e ainda assim elegantemente, diz não ver motivos para continuar filiado ao partido político que ajudou a fundar, já que não pretende mais se candidatar a cargo algum. Do outro lado, apenas silêncio, sob o falso argumento de que não haveria por que comentar uma decisão pessoal e de foro íntimo.

Dirão alguns, os mais calejados certamente, que são apenas coisas da política, ambiente em que fidelidade e coerência são valores incomuns, mesmo que possam conduzir a armadilhas como aquela que acabou atingindo o ex-prefeito de Belo Horizonte, ex-governador de Minas, deputado e senador. Ele carrega uma cruz pesada demais, porém, ao contrário de muitos outros, pode dizer que tem a consciência tranquila e isso faz enorme diferença.